Qual a diferença entre Cannabis Sativa e Cannabis Indica?

Você que é um apreciador da Cannabis ou está apenas navegando pelo MapaDaMaconha, já deve ter percebido que é difícil falar de maconha sem falar de suas duas principais espécies: Cannabis sativa e Cannabis indica.

Deve ter notado também que a divisão sativa/indica é usada para diferenciar os efeitos psicoativos e medicinais de cada planta. Sativas provém uma onda mais energética e mental enquanto indicas proporcionam um barato mais sedativo e corporal, certo

Errado. Com o avanço das pesquisas canábicas em todo o mundo, surge uma nova linha de raciocínio que deve acabar com o mito que sativas lhe deixarão alegre e acordado enquanto indicas te farão ficar grudado no sofá.

Pode parecer estranho refutar um sistema de classificação que já está em uso há tantos anos, e é por isso que esse post foi feito sobre medida para explicar e esclarecer um pouco sobre as origens geográficas, diferenças físicas, psicoativas, medicinais e de cultivo de cada variedade da planta.

Este artigo vem com o intuito de quebrar paradigmas através da informação, e ao final dele você saberá as reais diferenças entre Cannabis sativa e Cannabis indica.

Origens dos termos Sativa e Indica

No século XVIII, as palavras “indica” e “sativa” foram usadas pela primeira vez para descreverem as diferentes variedades do gênero Cannabis.

Usado primeiramente pelo biólogo Carl Linnaeus, o termo “sativa” era usado para se referir às plantas encontradas na Europa e no Oeste da Ásia e que eram cultivadas apenas por suas fibras e sementes, ou seja, essas plantas não produziam o “barato” da maconha.

Já o termo “indica”, usado primeiramente por Jean-Baptiste Lamarck, se referia às variedades encontradas na Índia, Oriente Médio e países tropicais que eram usadas pelas suas fibras, sementes e também para a produção de haxixe.

Os professores Robert C. Clarke e Mark D. Merlin publicaram em 2016 um estudo onde mostram que todas as variedades psicoativas de Cannabis no mercado atual evoluíram da Cannabis Indica e o que Carl Linnaeus classificou originalmente como Cannabis sativa hoje é conhecido como o cânhamo industrial.

Desse estudo tiramos então algumas informações que você talvez não saiba:

  • O que conhecemos hoje como cannabis sativa, ou seja, plantas altas, com folhas finas e alongadas originalmente eram conhecidas como Cannabis indica ssp. indica e tinham sua distribuição em países de clima tropical, localizados mais próximos à faixa do equador.
  • As plantas de menor estatura, folhas mais largas e de tons mais escuros que hoje em dia são conhecidas como cannabis indica, originalmente eram chamadas de Cannabis indica ssp. afghanica e ocorriam nas regiões do Oriente médio, Índia e sul da Ásia.
  • O que chamamos hoje de cânhamo se refere às variedades de uso industrial da erva, que não possuem níveis significantes de THC, cultivadas primeiramente para extração de fibras e sementes. O cânhamo originalmente era chamado de Cannabis sativa e ocorria na Europa e oeste da Ásia.

O que isso nos mostra é que a maioria esmagadora das plantas de maconha que consumimos hoje em dia se derivaram da Cannabis indica, porém com a imensa variedade de híbridos e cruzamentos genéticos que temos atualmente, uma nova classificação surgiu: Indica vs Sativa.

Apesar de causar certo debate entre taxonomistas, essa nova divisão é muito útil pois consegue separar de maneira simples e objetiva as duas variedades com base nos seus tratos de cultivo, aparência física e efeitos psicoativos e medicinais de cada genética.

Diferenças físicas

As diferenças físicas entre as espécies de Cannabis são bem marcantes e você não precisa ser um mestre cultivador para conseguir distinguir rapidamente uma variedade da outra.

Diferenças entre sativa e indica

Foto: Leafly

  • As plantas de Cannabis Sativa são mais altas, com folhas mais finas, menos adensadas e normalmente possui um tom de verde mais claro.
  • As plantas da espécie Indica são menores em estatura, possuem folhas largas, com tons mais escuros e são mais arbustivas.
Diferenças entre sativa e indica

Sativa vs Indica (Fonte: Sensiseeds)

  • Sativas têm flores menos densas, folhosas e seu odor tende a ser mais doce ou cítrico. Indicas possuem flores gordas e densas e seu aroma varia bastante de acordo com a genética, de cheiros mais doces até alguns mais “mofados”.

Cultivo

Um dos grandes prazeres de cultivar sua própria erva é poder escolher quais genéticas combinam mais com você. Cada variedade, porém, possui traços específicos de cultivo e sem se informar você pode acabar escolhendo uma planta que não é a mais adequada para seu espaço. Sativas, Indicas e híbridas possuem tempos de floração, rendimentos e cuidados diferentes que têm de ser tomados ao escolher cultivar cada espécie. Mais do que isso, vale ressaltar que cada genética possui efeitos e propriedades medicinais distintas e estes também devem ser levados em conta na hora de fazer sua escolha.

Indica

Essa espécie possui um ciclo de floração e estatura menor que as Sativas. Por esses dois motivos, muitos growers dão preferência à essa variedade por poderem ser facilmente cultivadas Indoor pelo seu tamanho e render mais buds devido às suas flores mais densas e ciclo de colheita mais curto.

  • Ciclos de floração menores (45-60 dias)
  • Acostumadas à climas mais frios e secos
  • Menor estatura facilita o cultivo Indoor
  • Maiores colheitas por pé devido aos buds serem mais adensados

Sativa

As sativas se originaram nos países mais próximos ao equador e isso significa verões longos e invernos curtos. O que isso nos diz é que essas plantas gostam, e muito, da luz solar. Elas são altas, compridas e demoram mais tempo para florescer. Geralmente, não são uma boa escolha para growers de primeira viagem, pois sua estatura para o cultivo indoor pode atrapalhar e, dependendo do espaço disponível,  pode ser necessário o uso de técnicas de poda para controlar o crescimento da planta.

  • Ciclos de floração maiores (60-90 dias)
  • Mais adaptadas a climas quentes e úmidos
  • Alta taxa de crescimento vegetativo, o que acarreta em uma estatura elevada da planta. Plantas cultivadas outdoor podem chegar a mais de 5 metros de altura.
  • Flores mais leves e menos densas proporcionam um menor rendimento por plantas do mesmo tamanho, se comparado com a variedade Indica.

Efeitos

O que sabemos, e que é vastamente difundido no mundo canábico, é que a variedade da planta é diretamente ligada ao efeito que sentimos ao consumi-la. Hoje em dia se identifica os dois grupos da seguinte maneira:

Diferenças entre sativa e indica

Sativa vs Indica: Efeitos (Fonte: Sensiseeds)

  • Espécies de Cannabis sativa tendem a proporcionar uma onda mais revigorante, criativa e eufórica. Uma onda que combina bem com atividades sociais, físicas e artísticas. Algumas das strains mais famosas de sativa são: Sour Diesel, Purple Haze, Jack Herer.
  • As espécies Indica provém uma onda mais sedativa, um barato mais corporal. São perfeitas para relaxar, assistir um filme e dormir uma boa noite de sono. Alguns exemplos de strains são: Grandaddy Purple, Bubba Kush, Northern Lights.
  • Temos também as espécies híbridas que tendem a ser um meio-termo entre o barato da Indica e Sativa. Os traços genéticos herdados das espécies matriz definirão para qual lado a onda irá tender. Exemplos de genéticas híbridas: OG Kush, Pineapple Express, White Widow.

Essa diferenciação dos efeitos de cada espécie já é aceita e usada em todo o globo, porém, alguns pesquisadores discordam da maneira como isso é tratado.

Segundo Ethan Russo, que é um neurologista cujas pesquisas em farmacologia canábica são reconhecidas mundialmente, a distinção indica / sativa que temos atualmente é um “absurdo total”. Ele ressalta que é impossível prever os canabinóides presentes e os efeitos que cada planta causará apenas pela sua aparência física.

A proposta de Ethan é que paremos de usar o sistema indica / sativa e passemos a nos nortear na concentração de canabinóides presentes em cada genética para dividi-las em grupo.

Confirmando as teorias de Russo, em 2015 pesquisadores da University of British Columbia e Dalhousie University testaram diferentes genéticas de Cannabis medicinal para procurar por similaridades na origem e nos perfis químicos de cada variedade declarada “Indica” ou “Sativa”.

Além de amostras de fibras de cânhamo, os pesquisadores compararam 83 linhagens ricas em THC provenientes de produtores licenciados e não conseguiram encontrar padrão algum em nenhuma das duas espécies da erva.

O que isso significa é que devemos sim usar a divisão sativa/indica para descrever traços de cultivo, padrões de crescimento, regiões de ocorrência e climas preferidos de cada espécie, porém devemos ficar muito atentos na hora de taxar os efeitos psicoativos e propriedades medicinais de cada genética.

Conclui-se então que nem todas as sativas irão te proporcionar uma onda mais enérgica e criativa, e nem todas indicas irão te dar um barato mais corporal e sedativo. O que podemos notar é uma tendência dessas indicas a serem relaxantes e sativas serem revigorantes, especialmente quando já esperamos sentir uma onda ou outra ao usá-las. Apenas saiba que não há uma regra clara ou padrões químicos que comprovem esse tipo de barato para cada espécie.

Uso medicinal

O primeiro passo para se entender a diferença entre os efeitos terapêuticos das espécies de Cannabis é saber o que são os canabinóides.

Os canabinóides são compostos químicos presentes nas plantas de Cannabis e são os principais responsáveis pelas propriedades medicinais e recreacionais da erva. Atualmente já se conhecem mais de 70 canabinóides presentes na maconha, porém há dois deles que se destacam: THC e CBD.

Sem dúvidas o Δ9-tetrahydrocannabinol, mais conhecido como THC, é o mais famoso dos canabinóides por ser o principal composto psicoativo da planta. O THC pode reduzir as náuseas, dores crônicas, inflamações e problemas de espasmos musculares. Ele também pode aumentar o apetite e provoca o bem estar do barato da maconha. Vale lembrar que dependendo da dosagem e do paciente o THC pode causar efeitos colaterais como paranóia e ansiedade.

Um canabinóide um pouco menos conhecido porém muito estudado nas últimas décadas por não possuir efeitos psicoativos, o canabidiol (CBD) é responsável por grande parte das propriedades terapêuticas e medicinais associadas à maconha. A lista de usos medicinais do CBD é vasta e diferente do THC, estudos mostram que ele quase não possui efeitos colaterais. Alguns dos principais usos do CBD são no tratamento de:

  • Ansiedade
  • Epilepsia / Convulsões
  • Transtornos Psicóticos
  • Transtorno de estresse pós-traumático
  • Pressão alta
  • Esclerose múltipla
  • Dores crônicas

Agora que conhecemos um pouco mais sobre os dois principais canabinóides estudados na área médica, podemos relacioná-los com as duas diferentes espécies de Cannabis.

As variedades de Cannabis indica normalmente possuem um nível maior de CBD em relação ao THC, enquanto as variedades de sativa possuem mais THC em relação ao CBD.

Isso significa que as indicas normalmente são indicadas para relaxar, reduzir o estresse, ajudar a dormir, diminuir a ansiedade e dores crônicas.

Já as sativas são indicadas para quem precisa de estimular o apetite, aliviar as dores e náuseas ou apenas sentir o bem-estar causado pelo THC. Vale lembrar que espécies ricas em THC são mais indicadas para serem usadas durante o dia, por não causarem tanta “lombra” quanto as indicas.

Lembrando que, como citamos anteriormente, a diferenciação em sativa e indica é só um indicativo dos compostos que a planta pode conter. Você pode achar espécies de indica que possuem muito mais THC que algumas sativas e vice-versa.

Conclusão

Apesar do complexo emaranhado de genéticas disponíveis no mercado atual da Cannabis, com as informações apresentadas você já está um passo mais próximo de encontrar a genética que é perfeita para você.

Vale lembrar que se você acha que, por exemplo, sativas lhe ajudam a dormir, não há porque mudar suas suposições baseado no que outros classificam como padrão.

Assim como as variedades canábicas, cada pessoa é única e reagirá de maneira diferente aos teores de canabinóides de cada espécie. O importante é achar a genética que combina melhor com o seu organismo e parar de se preocupar com as etiquetas pregadas pelo mercado.

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