Quanto tempo a maconha fica no seu corpo?

Você acabou de conseguir o emprego dos seus sonhos. Enquanto lê a oferta da empresa se enche de felicidade…plano de saúde, benefícios salariais e muito mais. Todo seu esforço finalmente está sendo recompensado. Porém você chega no final da oferta e toma um susto quando lê “Teste toxicológico de rotina obrigatório”.

Você tem um mini ataque cardíaco na hora enquanto pensa “Quando foi a última vez que fumei um baseado? Ontem ? Uma semana atrás ? Por quanto tempo isso será problema em um teste de drogas?”

Mesmo que o bom senso nos diga que o certo é dar uma tolerância de no mínimo 30 dias, a resposta não é tão simples assim. Existem vários tipos de testes de drogas diferentes que possuem níveis de sensibilidade e períodos de tempo diferente tratando da detecção de cannabis no seu sistema.

O problema é que com tantos modos diferentes de se usar a erva combinado com a biologia única de cada pessoa faz com que o cálculo da janela de detecção (número de dias após parar por completo o uso que o teste ainda virá positivo) seja muito complexo.

“Não existe uma janela de detecção padrão”, diz Ryan Vandrey, um professor de psiquiatria e ciências comportamentais pela Universidade de Johns Hopkins. “É altamente variável de pessoa para pessoa e também varia de acordo com a frequência e quantidade do uso. Então não há como prever ou saber ao certo por quanto tempo uma pessoa irá testar positivo para alguma substância”.

Como os testes toxicológicos funcionam?

Em média, 40 a 50 milhões de testes são conduzidos por empregadores todos os anos, que analisam materiais biológicos como urina, sangue, saliva, suor e até mesmo unhas. Quando a maconha é consumida, os níveis de THC aumentam temporariamente no corpo e esse aumento é detectável por exames de sangue de horas até um dia após consumir uma única vez. Esses níveis caem significativamente após alguns dias, porém ainda há outras maneiras de detectar o uso recente da substância.

THC, CBD e seus produtos metabólicos são lipídio-solúveis e se acumulam nas reservas de gordura do corpo. Estas moléculas são liberadas aos poucos pelo corpo, resultando em um tempo consideravelmente maior para o corpo se livrar dos resquícios da maconha do que de outras drogas recreacionais, especialmente para usuários crônicos. Os testes de cabelo são os com a maior janela de detecção, capazes de registrar níveis de um dos metabólitos do THC, o 11-nor-delta9-carboxi-THC (THC-COOH), até 90 dias após a cessação do uso.

Enquanto cada tipo de teste tenha suas vantagens, os testes de urina tendem a ser os mais escolhidos e usados por empregadores privados e são o único teste recomendado pela agência de abuso de substâncias americana (SAMHSA). Assim como os testes de cabelo, os testes de urina não medem diretamente a quantidade de THC presente no sistema, mas sim os níveis do metabólito THC-COOH.

Depois de escolhido o tipo de teste, o testador também deve selecionar a sensibilidade, ou seja, a quantidade máxima da concentração de THC-COOH em que um teste será considerado positivo. A quantidade de corte mais comum para testes de urina é de 50 ng/ml, podendo variar de 15 ng/ml até 100 ng/ml – Cada um dos valores resulta em diferentes janelas de detecção.

“O teste é um processo de duas partes”, diz Vandrey. “A primeira parte é uma avaliação qualitativa de sim/não com um corte típico de 50 nanogramas por mililitro. Se o teste qualitativo for positivo, é enviado para uma confirmação com uma avaliação mais sensível que usa um corte de 15 ng/ml”.

Apesar do fato de que SAMHSA estabelece padrões que regulam esses testes de urina, a vasta variabilidade no uso de cannabis, bem como as diferenças individuais na biologia do indivíduo, dificultam os esforços para desenvolver janelas de detecção específicas.

Quanto tempo a cannabis fica no seu sistema?

THC no sistema

Foto: MedicalNewsToday

Todos nós possuímos um metabolismo único que processa a cannabis em tempos diferentes. Até mesmo em pessoas do mesmo sexo e idade as escolhas de vida podem mudar e muito as janelas de detecção. Pessoas que se exercitam mais e com hábitos alimentares melhores tendem a ter janelas de detecção menores que pessoas sedentárias. Isso acontece porque indivíduos com níveis mais altos de gordura corporal armazenam os metabólitos dos canabinóides com mais facilidade que pessoas magras.

Apesar da grande variabilidade inicial, há diversos estudos que exploraram essa questão durante os anos e que oferecem algumas informações pertinentes para aqueles que estão aguardando o temido teste toxicológico.

De acordo com um artigo de 2005 por Paul Cary, diretor do laboratório toxicológico e de monitoramento de drogas da Universidade de Missouri, a detecção após 30 dias pode ocorrer em alguns casos, mas são exceções.

Por exemplo, um estudo de 1989 de usuários crônicos mostrou uma janela de detecção máxima de 25 dias usando uma sensibilidade de 20 ng/mL. Porém o mesmo estudo apontou que apenas um paciente testou positivo após 14 dias, e que a média de tempo para que os níveis de canabinóides não fossem mais detectáveis foi de 9.8 dias. Um estudo de 1984 também testando usuários crônicos com um corte de 50 ng/mL mostrou um máximo de 40 dias para se livrar dos traços da erva, porém 8 dos 10 pacientes precisaram de apenas 13 dias para testar negativamente pela primeira vez.

Consequentemente, Cary nos mostra algumas janelas de detecção que ele acredita que são razoáveis dependendo da frequência de uso do indivíduo em questão e da sensibilidade do teste.

Com a sensibilidade do teste de 50 ng/mL, ele afirma que “Seria improvável que um usuário crônico produzisse um resultado positivo em um teste de urina depois de parar de fumar por pelo menos 10 dias”. Se a sensibilidade do teste for reduzida para 20 ng/mL ele afirma que a janela de detecção deve se estender para em média 21 dias para usuários frequentes.

Por outro lado, para aqueles que fumam ocasionalmente ou fumaram pela primeira vez “seria incomum que a detecção de canabinóides pelo teste de urina se estenda por mais de 4 dias após o episódio que a droga foi usada” com uma sensibilidade de 50 ng/mL. Essa janela cresce para uma semana se o limite do teste for mais sensível, ao nível de 20 ng/mL.

É importante lembrar que “ocasional” e “crônico” representam os extremos do espectro de usuários e que a maioria dos maconheiros se encaixam em um lugar entre os dois termos.

“Eu acho que estes tempos de detecção são razoáveis”, diz Ron Flegel, diretor da divisão de programas da SAMHSA. “Se é um uso infrequente ou único, normalmente demora apenas 72 horas para os resultados virem negativos em um teste de 50 ng/mL, enquanto para usuários crônicos provavelmente estamos pensando em 7-10 dias.”

Fatores que podem impactar os testes

Flegel também observa que ele frequentemente vê casos em que os indivíduos flutuam entre testes positivos e negativos ao longo de um período de tempo.

“Muitas pessoas nos ligam e dizem que alguém havia testado negativo e agora estão testando positivo, mesmo que a pessoa em questão jure que não tenham usado nada” diz Flegel.  “Mas se uma pessoa fica desidratada, ela concentra a urina e, quando se exercita, quebra as células de gordura e libera THC”, o que aumenta as chances de um teste positivo. “Então você realmente verá que com o tempo eles vão alternar entre positivo e negativo.”

Enquanto isso, Vandrey acredita que estas recomendações gerais são infundadas, especialmente para usuários crônicos.

“Em um único uso para uma dose fixa, podemos ver uma alta variabilidade na ordem dos dias”, diz ele. “Então alguém pode estar limpo no dia seguinte e outros podem testar positivos por sete dias. E se você está falando sobre o uso frequente e repetido, a variabilidade só aumenta. Eu tive pessoas que fumavam cannabis durante todo o dia todos os dias limpas em uma semana e meia enquanto outras testavam positivo por até 2 meses.

O consumo de CBD resulta em um teste de drogas positivo?

E quanto aqueles que usam apenas canabinóides não-intoxicantes, como o CBD? Durante quanto tempo ele fica em seu sistema, e isso testará positivo nos testes toxicológicos?

Como o teste de urina padrão analisa somente os metabólitos do THC, aqueles que consomem o óleo de CBD / cânhamo têm muito pouco risco de testar positivo. Mas como os óleos de cânhamo contêm quantidades muito pequenas de THC, aqueles que usam uma quantidade extraordinariamente grande de produtos ricos em canabinóides (acima de 1000-2000 mg por dia) podem testar positivo em um teste de urina inicial, que é suscetível a contaminação de outros canabinóides. No entanto, esse “falso positivo” não se sustentaria na segunda rodada mais rigorosa de testes confirmatórios, que mede especificamente o THC-COOH.

Como passar em um teste toxicológico para cannabis

Mas para aqueles que fumam a erva, há algo que você possa fazer para evitar um teste positivo ou acelerar o processo de desintoxicação?

Embora a abstinência seja a resposta inicial óbvia, pode ser perigoso até sair com amigos que estão fumando. Em um estudo de 2015 Vandrey expôs um pequeno grupo de participantes ao fumo passivo, a famosa “fumada de tabela”, em salas ventiladas e não ventiladas. Ele mostrou que alguns participantes sentados na sala não ventilada apresentaram resultado positivo para THC-COOH, com concentrações na urina superiores a 57 ng / mL.

“Não é certeza que fumando passivamente você testará positivo para maconha, mas é possível”, diz Vandrey. “Então, se você está sujeito ao teste toxicológico no futuro próximo e está cercado por um grupo de pessoas fumando maconha em uma sala fechada, você deveria ir embora.”

Muitos que estão para enfrentar um teste de drogas mas não estão dispostos a abandonar completamente a erva recorrem à canabinóides sintéticos na esperança de enganar os testes. Estas alternativas, porém, conhecidas como “K2” ou “Spice” são imprevisíveis, mostrando efeitos colaterais que vão de náuseas à convulsões e que resultaram num pico de overdoses nos últimos anos nos Estados Unidos. Estas alternativas ainda não são comuns no Brasil mas muitos recorrem à elas em países onde já são acessíveis facilmente. Outro problema é que muitas empresas privadas já incluem o teste para canabinóides sintéticos em seus testes de rotina, fazendo com que essa opção além de perigosa seja inútil.

Outros que continuam a fumar podem tentar adulterar sua urina, adicionando substâncias químicas como clorocromato de piridínio ou peroxidase que eliminam o THC-COOH na amostra. A maioria das agências de testes, no entanto, fará a triagem desses compostos e ser apanhado é tão ruim, se não pior, que testar positivo.

Em nossos programas, se você adultera uma amostra, é considerado com uma recusa a fazer o teste e na maioria das situações você é demitido ”, diz Flegel.

Como tirar o THC do seu sistema

Como tirar THC do seu sistema

Foto: Leafly

Para aqueles que conseguem largar a maconha, uma técnica comum é “limpar” seu sistema bebendo muita água. Essa técnica é boa pois a desidratação irá aumentar a concentração da sua urina e pode aumentar também as chances de você testar positivo. Por outro lado, se sua urina estiver muito diluída, irá invalidar os resultados do teste e você terá de repeti-lo, então hidrate-se conscientemente.

Uma tática mais efetiva para acelerar o processo de desintoxicação é cortar as laricas e entrar para a academia.

“O jejum vai queimar gordura, o que vai liberar mais canabinóides”, diz Vandrey. “Se você tem mais gordura, então há mais tecido para os canabinóides serem armazenados, desse jeito você pode ter uma janela de detecção um pouco mais longa.”

No entanto, é importante dar ao seu corpo tempo suficiente para eliminar esses canabinóides, pois o exercício ou a dieta resultarão em um aumento transitório nos metabólitos do THC à medida que eles saem do corpo.

Resumindo…

Se você for um verdadeiro maconheiro, que fuma pelo menos um baseado por dia já há algum tempo, tente dar uma pausa de pelo menos 2 semanas se tiver de fazer um teste. Lembre-se de beber bastante água, comer bem e se exercitar nesse período para aumentar suas chances de conseguir um teste negativo.

Se você for do tipo de pessoa que fuma raramente ou só fumou uma vez, não se preocupe. Em 7 a 10 dias o seu corpo já estará livre dos metabólitos do THC. Lembre-se que essas regras valem apenas para o exame toxicológico de urina, se o teste for feito pelo cabelo, o THC pode ficar até 90 dias no seu sistema.

Se você sabe que tem um teste toxicológico se aproximando, não se desespere. Dada as janelas de detecção que vimos em testes padrão de cannabis, é bem provável que você conseguirá passar um teste de urina se você tiver tempo o suficiente para se preparar. Porém se seu emprego faz testes regularmente e sem aviso prévio, provavelmente você terá de escolher entre ele ou a erva.

 

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