O uso do óleo de cannabis para o tratamento do autismo vêm se mostrando como tratamento promissor em diversos casos. Entenda como o cannabidiol se posicionou como um grande aliado, principalmente quando falamos de autismo infantil.

A atmosfera do autismo é enevoada. Apesar de ser uma condição mais ou menos comum – e com sua prevalência aumentada a cada ano que passa –, estudiosos da saúde jamais compreenderam totalmente a causa, assim como a tradicional medicina alopática é errante nos tratamentos sugeridos. Mas a cannabis como tratamento para o autismo, vem se provando uma aliada na melhoria da qualidade de vida dos autistas.

Os benefícios da maconha terapêutica para o autismo incluem redução da ansiedade, de comportamentos autolesivos, bem como a regulação do sono, filhos que olham nos olhos dos pais pela primeira vez, crianças mais calmas e com habilidades sociais. Incrível, não? Entenda a seguir porque a Cannabis é uma amiga dos autistas.

Mas você sabe o que é autismo?

Antes de tudo, tenha em mente: autismo não é doença. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é, como o próprio termo avisa, um transtorno de desenvolvimento cognitivo que compromete as habilidades de comunicação e interação social do indivíduo, o que não quer dizer que a condição impeça o convívio social, tampouco a realização de tarefas cotidianas.

Conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM-5, pessoas dentro do espectro podem manifestar padrões restritos e repetitivos de comportamento, como movimentos contínuos, interesses fixos e hipo ou hipersensibilidade a estímulos sensoriais.

Mas não se engane. Ainda que seja nomeado de autismo infantil, uma vez que o diagnóstico seja recorrente durante a primeira infância, os transtornos são condições permanentes que acompanham a pessoa vida afora.

Quem possui o TEA pode imitar involuntariamente os movimentos de alguém. Também são corriqueiros vários tipos de repetição descoordenada, tanto de palavras como de movimentos. É comum terem também dificuldade de manter contato visual.

No aspecto do desenvolvimento, relata-se dificuldade geral no processo de aprendizagem. Um dos sinais preliminares é o atraso na fala já nos primeiros anos de vida. Em sua dimensão cognitiva, o autista enfrenta certo entrave para manter o foco, além de demonstrar interesse em um número reduzido de temas. Psicologicamente, pode não reconhecer emoções alheias e sofrer de depressão e ansiedade.

Em graus mais leves, o autismo pode até passar despercebido por pais e tutores. É importante ter em conta que o transtorno se revela de maneiras distintas, sem um padrão exato. Todos os pacientes com autismo partilham dificuldades, mas cada um, a seu modo, é afetado em graus de intensidade diferentes, o que se transpõe em situações típicas ao indivíduo.

A intensidade, quantidade e combinação de sintomas está atrelada ao universo particular da pessoa, o que nos dá pistas do porquê testemunharmos histórias de pacientes com o espectro que são excepcionais em um assunto ou habilidade, enquanto outros sofrem com retardos expressivos no desenrolar psicossocial e motor.

A errância da medicina convencional frente ao autismo

Medicamentos Para Autismo
Fonte: Hospital Semedis

Ainda assim, até hoje, o TEA permanece sem um tratamento predeterminado. Insiste-se na receita de antidepressivos e ansiolíticos, desencadeadores de efeitos paralelos desagradáveis, principalmente porque os pacientes acabam por necessitar da administração de diversas substâncias em altas dosagens por longos anos.

Além disso, muitos autistas acabam por serem submetidos a terapias desrespeitosas, como a ABA, e apresentam quadro de estresse pós-traumático. ABA é abreviação para Applied Behavior Analysis. Em português, conhecemos como Análise do Comportamento Aplicada. A metodologia consiste em forçar a inserção de autistas na sociedade por meio de artifícios comportamentais não habituais a quem porta a condição.

Em outras palavras, a intenção da ABA tem como premissa tornar alguém ‘menos autista’. Mas não há cura para o que não é doença. Moldar os comportamentos de outrem não reforma a sua essência ou a sua particular marcha cerebral. Pelo contrário: acaba por frustrar e “matar” o paciente por dentro, já que, para ter aceitação, abre mão de simplesmente ser o que se é.

Dadas as consequências negativas geradas principalmente pelos ‘tarja preta’, há algum tempo têm sido consideradas outras opções menos agressivas ao organismo, entre elas a maconha. Enquanto os antidepressivos agem com a interrupção de transmissões neuroquímicas e o controle da reabsorção de serotonina e dopamina, o canabidiol interage naturalmente com os neurotransmissores, e equilibra a sua atuação no organismo, o que apazigua a excitação neuronal excessiva.

Número de autistas é proporcional ao descaso do estado brasileiro

Conforme um levantamento do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, uma agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, os autistas têm se avolumado com o passar dos tempos. Se em 2004, 1 pessoa em 166 tinham o TEA em 2020 este número está na casa de 1 em 54. Trocando em miúdos, a condição atinge cerca de 0,5% da população mundial.

Cannabis Medicinal
Fonte: Superinteressante

No Brasil, são dois milhões de pessoas com o TEA. Uma questão de saúde pública, portanto. O acesso indiscriminado à Cannabis (lembremo-nos: uma planta) é um direito à vida.

Por mais que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenha retirado a maconha medicinal da lista de substâncias proibidas, e agora médicos possam receitar e farmácias possam comercializar o extrato de CBD sem carecer de autorização judicial, a não liberação do cultivo da Cannabis atrapalha milhares de famílias que dependem da maconha terapêutica. O plantio reduziria a burocracia e baratearia o processo. Mas a legalização da maconha caminha a passos lentos no nosso país, sempre na contramão do mundo.

Os avanços vêm a conta-gotas. Em junho de 2020, por exemplo, um casal de Campinas, no interior paulista, conseguiu aval do Tribunal de Justiça de São Paulo para cultivar maconha para fins medicinais. Eles são pais de duas crianças, de 7 e 10 anos de idade, diagnosticados com TEA. Com o uso do óleo de Cannabis desde abril daquele ano, manifestaram melhoras significativas. Mas precisamos de mais histórias felizes, precisamos de mais pessoas conseguindo realizar o tratamento do autismo com a cannabis.

A ciência aposta na cannabis como tratamento para o autismo

As conhecidas moléculas derivadas da maconha, o CBD e o THC, guardadas suas devidas proporções em extratos oleosos, quando administradas aos pacientes, desencadeiam uma melhora considerável (de mais de 30%) em pelo menos um grupo importante de sintomas. É o que apresenta um pequeno estudo brasileiro, de 2019, da Universidade de Brasília (UnB), em observância a 18 pacientes ligados à associação Ama-me. As conclusões são animadoras.

Publicado na revista Frontiers of Neurology, os pesquisadores tomaram nota da diminuição expressiva do número de convulsões, da melhora no déficit de atenção e hiperatividade, no sono, na comunicação e na interação social. Alguns dos examinados prosperam notavelmente em até quatro desses grupos de sintomas ao mesmo tempo.

Semelhanças positivas já tinham despontado no final do ano passado em outro estudo, feito com 60 pacientes, em Israel, que, com isso, não titubeou em prosseguir com testes clínicos de maior escala, em busca de resultados confiáveis para beneficiar o tratamento com cannabis para o autismo de quem não pode (nem deveria) esperar. Tanto no Brasil quanto nas arábias, concordou-se que os benfazejos são uma exclusividade da Cannabis. Nada na farmácia convencional chega aos pés da ação do extrato de maconha para o controle do TEA.

CBD para crianças
Fonte: Educate Inspirate Change

É por volta dos dois anos de idade que os genitores notam os primeiros lapsos comuns à condição autista: introspecção, agressividade e dificuldade de comunicação. Mas, como estávamos contando no início deste artigo, pairam mistérios sobre o autismo. Nesse encalço, dois dos autores do estudo brasileiro, um neurobiólogo e um médico, também pais de crianças com autismo, inquietam-se frente à falta de respostas da ciência e da medicina à pergunta fundamental: “O que acarreta o autismo?”.

Pouco a pouco, a dupla tem se aproximado do reforço da “hipótese do mundo intenso”, teoria suíça do século passado pela qual se infere que os distúrbios aguçados pelo autismo seriam fruto do excesso de estimulação dos neurônios, como ocorre no quadro epilético. Daí entra em cena o Sistema Endocanabinóide (SEC), alvo químico da maconha, que opera justamente um mecanismo para tranquilizar as células cerebrais ante uma demasiada excitação, cessando o ataque.

Outra pesquisadora, Adit Shankardass, descobriu focos cerebrais de atividade epileptiforme em crianças autistas, as quais batizou de “hidden seizures” (em tradução livre: “convulsões escondidas”). Como se pode inferir pela própria denominação, a tese elucidaria porque, mesmo na ausência de ataques e convulsões, perdura a incapacidade de conexão com o mundo exterior por estas criança.

A engrenagem endocanábica respalda o sucesso de fármacos à base de maconha para sanar convulsões, que, em linhas gerais, se tratam de curtos-circuitos neuronais. Para quem acompanha a discussão científica e os relatos de muitas mães, já se tinha ideia de que autistas que convulsionam provam benefícios pelo uso da Cannabis.

Investigações anteriores feitas com pacientes epilépticos, que também eram autistas, demonstraram efeitos positivos, o que justificaria sondar se a planta serviria como alternativa de recurso terapêutico para o segundo problema, já que a epilepsia também é caracterizada por um excesso de atividade dos neurônios.

O que não se tinha ideia é de que a Cannabis também alivia vários outros sintomas. Só no ano de 2018, cientistas italianos deram aval à hipótese quando concluíram que cérebros autistas sofrem com uma espécie de inflamação constante, ora abrandada por ações no Sistema Endocanabinóide (SEC). Como se sabe, o SEC modula uma gama de processos fisiológicos, como dor, inflamação, termorregulação, controle muscular, metabolismo qualidade do sono, resposta a estresse… Fantástico, não?

A riqueza substancial da Cannabis é uma aliada, não uma inimiga

Cannabis para Autismo Infantil
Fonte: Vice

Muito se acredita que o remédio para o autismo é o CBD puro, um dos componentes da Cannabis. Até por não causar o “barato” experimentado com o THC, o canabidiol é menos estigmatizado. Mas os cientistas, tanto os de Israel quanto os do Brasil, têm concluído que, sem THC, o tratamento com Cannabis (CBD) para o autismo não funciona ou funciona insatisfatoriamente. Os canabinoides como um todo, em especial o THC, têm um papel relevante na regulação sensorial.

Enquanto nos testes israelenses os cientistas apostam na proporção de CBD para THC de 20:1, no Brasil esta se limita a 75:1. O intercâmbio de dados obtidos em ambos lados levou um dos brasileiros a suspeitar de que, com mais THC, os resultados são melhores e mais rápidos.

Inclusive no cuidado com o próprio filho, o professor Renato Malcher-Lopes, do Departamento de Ciências Fisiológicas da UnB, pondera as variáveis e averigua que, ausente o THC, as doses de CBD precisam ser demasiadamente altas, a ponto de reverberar efeitos colaterais indesejáveis.

Consumo de maconha na gravidez pode ser faca de dois gumes

Em agosto de 2020, um estudo canadense gerou burburinho na comunidade canábica mundial. Difundido na revista científica Nature Medicine, a pesquisa oriunda da Universidade de Ottawa alertou para o uso de cannabis durante a gravidez. Conforme a publicação, o consumo recreativo da maconha poderia causar autismo no bebê.

Os pesquisadores assimilaram diagnósticos de condições de neurodesenvolvimento, como o autismo, em mais de 500.000 crianças nascidas entre 2007 e 2012 em Ontário, no Canadá. Fizeram-no por meio de um registro de nascimento para identificar as mães que usaram cannabis durante a gravidez.

cannabis na gravidez
Fonte: USP

No check-in do primeiro trimestre, 0,6 por cento das mães entrevistadas assinalaram que sim. Do meio milhão de crianças registradas, 7.125 foram diagnosticadas com autismo, e sua prevalência foi maior entre crianças nascidas de mulheres que usaram Cannabis durante a gravidez (2,22%, em comparação com 1,41% entre as mulheres que não fizeram o uso).

Mas não é caso para desespero. Historicamente, a pesquisa científica concentra esforços na predisposição genética. Mutações espontâneas que podem ocorrer no desenvolvimento do feto bem como a herança genética passada de pais para filhos são analisadas.

Por outro lado, já ficou evidente que as causas hereditárias explicariam apenas metade do risco de desenvolver TEA. Fatores ambientais que impactam o feto, como estresse, infecções, exposição a substâncias tóxicas, complicações durante a gravidez e desequilíbrios metabólicos teriam o mesmo peso na possibilidade de aparecimento do distúrbio.

Os autores do estudo reivindicam uma interpretação cautelosa dos resultados, afinal a associação surgiu por meio de uma balanço de registros de nascimento, não de um estudo controlado, a exemplo dos citados primeiramente no post. De acordo com os cientistas, a pesquisa não teria todos os dados necessários para se inferir uma comprovação. Entretanto, claro, é primordial ter cautela.

Como vimos aqui, o potencial benéfico da cannabis para o tratamento do autismo é generosamente grande. É preciso disseminar a informação para que a Cannabis sativa saia da penumbra da marginalidade e ascenda como uma esperança tangível para tantas famílias. Somente dessa forma, por pressão popular, podemos provocar mudanças significativas na legislação do Brasil.

Até o dia 15 de março, está aberta uma consulta pública pelo Ministério da Saúde para receber opiniões sobre a inclusão do canabidiol no Sistema Único de Saúde (SUS), para o tratamento de crianças e adolescentes com epilepsia refratária. Compartilhe com seus amigos o post mais o link para a consulta! 🙂

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