A Maconha é muito mais complexa do que imaginamos, são mais de 100 fitocanabinóides e o canabicromeno é um deles. Entenda mais sobre esse composto.

Por muitos anos todas as informações que a população tinha sobre maconha eram achismos e suposições. Poucos estudos foram feitos antes da proibição internacional da cannabis, uma planta usada para fins ritualísticos, religiosos, medicinais e industriais durante séculos em muitos lugares do mundo, como China e Índia.

Em 1961 acontece a Convenção Única sobre Entorpecentes nos Estados Unidos. Durante esse evento foi assinado um tratado classificando a maconha como uma substância perigosa, sem valor terapêutico e que deveria ser proibida internacionalmente por todos os países membros das Nações Unidas.

Com essa classificação, fazer qualquer pesquisa com cannabis era muito difícil, afinal se a produção, porte e importação da maconha eram proibidos, como os cientistas poderiam obter a planta para desenvolver pesquisas?

Mesmo com todas as dificuldades, muitos pesquisadores continuam buscando entender a cannabis. Em 1964 os israelenses Raphael Mechoulam e Yechiel Gaoni conseguiram isolar o THC e começaram a entender como funciona a maconha no nosso corpo.

Tal descoberta foi um marco para que outros pesquisadores olhassem com mais atenção para a cannabis e se dedicassem a descobrir os efeitos e componentes da erva. Graças a estes pesquisadores, muitos mistérios relacionados à erva vieram à luz. Atualmente, a cannabis medicinal e o cultivo para fins industriais e investigativos são permitidos em muitas partes do mundo e cada vez mais países deixam de lado a política de drogas proibicionista.

O que é o canabicromeno?

Quando falamos de canabinóides sempre ouvimos muito sobre o THC e o CBD, mas existem mais de 100 fitocanabinóides na cannabis. 

Provavelmente você nunca ouviu falar do canabicromeno, mais conhecido como CBC. Descoberto há mais de 50 anos, o CBC é um dos canabinóides mais estudados pela medicina moderna, e, mesmo sem ganhar muita atenção, seus benefícios se mostram extremamente promissores.

O CBC tem a mesma origem que o THC e que o CBD, ou seja, são resultantes da mesma molécula: o ácido canabigerólico (CBGa). Todas plantas de cannabis produzem o CBGa, que é o precursor dos 3 principais canabinoides: ácido tetrahidrocannabinólico (THCa), ácido canabidiólico (CBDa) e o ácido canabicromenico (CBCa).

As enzimas específicas da planta direcionam o produto da catálise destes ácidos em 3 linhas. Para o CBC, elas convertem o CBGa em CBCa e depois na presença de calor ou luz ultravioleta, esse composto se torna o CBC.

O CBC funciona com outros canabinóides

O CBC não se liga bem aos receptores canabinóides CB1 presentes no cérebro, por este motivo ele não “dá onda” que nem o THC. Ele se liga muito bem, porém, aos outros receptores presentes em nosso corpo como o receptor vanilóide de potencial transitório 1 (TRPV1) e o receptor transiente potencial de anquirina (TRPA1). Ambos estes receptores estão diretamente relacionados com a nossa percepção de dor. Quando o CBC ativa estes receptores, o corpo libera elevados níveis de endocanabinoides naturais, como a anandamida (conhecida como “substância da felicidade”).

Enquanto os benefícios do CBC já se mostraram definitivamente promissores, os pesquisadores acreditam que o composto age de forma sinergética com outros canabinóides em nosso corpo. Esse fenômeno, que acontece a partir da conexão entre as substâncias presentes na planta, é conhecido como “Efeito Entourage”. Esse efeito já é vastamente conhecido e estudado entre o THC e o CBD, mas ainda não é sabido ao certo se todos os canabinóides apresentam essa propriedade.

O potencial medicinal do CBC

O papel medicinal do CBC tem ramificações em várias áreas. Abaixo estão alguns exemplos de condições que podem ser aliviadas pelo uso do canabicromeno, muitas vezes na forma de óleos.

Câncer

O CBC pode ser um poderoso remédio na luta contra o câncer, e isso se dá pela interação que este composto apresenta com o endocanabinóide natural de nosso corpo, a anandamida. O canabicromeno também inibe a absorção de anandamida, fazendo com que ela fique por mais tempo circulando em nossa corrente sanguínea.

Um estudo recente em que o crescimento de tumores foi induzido em ratos de laboratório mostrou que os canabinóides são efetivos em inibir tanto a inflamação quanto o crescimento dos tumores. A anandamida já se mostrou eficiente em combater o câncer de mama in vitro e in vivo e isso nos leva a acreditar que o CBC e outros canabinóides podem um dia ser usados como remédios quimiopreventivos.

O uso do CBC como potencial agente contra o câncer foi publicado pela primeira vez em um estudo de 2006 que analisou os canabinóides, com exceção do THC, e seus possíveis efeitos em células cancerígenas. O THC é muito conhecido pelo seu poder de inibição do crescimento de tumores em vários tipos de câncer, porém suas propriedades psicotrópicas dificultam muito o processo de ser usado amplamente. Atualmente, as pesquisas indicam o CBC como o segundo mais potente canabinóide na inibição de células cancerígenas, atrás apenas do CBG.

Dores e inflamações

O canabicromeno já é conhecido por amenizar a dor e inflamação associada à osteoartrite. Moléculas como o CBC agem na inflamação de maneira diferente dos remédios anti-inflamatórios não-esteroides (AINEs), e não possuem os efeitos colaterais destes medicamentos. Em outro exemplo do “Efeito Entourage” o CBC em combinação com o THC, em um recente estudo com animais, mostrou uma resposta anti-inflamatória muito melhor quando os dois canabinóides foram combinados do que quando agiram sozinhos.

Células do cérebro

Em um estudo feito com ratos em 2013, o CBC teve um efeito positivo em células progenitoras neurais, que são essenciais para o funcionamento saudável do cérebro. Estas células são importantes porque elas se diferenciam em células da Glia, que auxiliam o sistema nervoso central e a homeostase do cérebro. Essas células da Glia realizam diversas funções incluindo o auxílio na direção dos neurotransmissores e defesa contra o estresse oxidativo. Essas células combatem também problemas como  inflamação e toxicidade, problemas estes responsáveis por doenças neurológicas e patologias do cérebro, como a Doença de Alzheimer.

Acne

Uma pesquisa que havia apontado o potencial do CBD para o tratamento de acne também estudou outros canabinoides como o CBC e concluiu que ambos possuem efeitos positivos para o tratamento da acne. A acne é uma doença de pele caracterizada pela produção excessiva de sebo e inflamação das glândulas sebáceas, as famosas espinhas. O CBC se mostrou um potente anti-inflamatório e também suprimiu a produção excessiva de lipídios na glândula sebácea. O canabinoide também reduziu os níveis de ácido araquidônico no organismo, que é necessário para se criar a lipogênese. São necessários mais estudos sobre o assunto, mas o CBC pode um dia se tornar um importante remédio no tratamento de acne.

Depressão

Em uma outra demonstração da ocorrência do “Efeito Entourage”, o CBC trabalhando em conjunto com o THC e o CBD formaram um excelente trio antidepressivo.

Conclusão

As implicações medicinais do CBC ainda requerem muita pesquisa para determinar seu verdadeiro poder quando isolado, e também quando usado em conjunto com outros canabinóides para produção do “Efeito Entourage”.

Pacientes que recorrem à cannabis ainda estão muito limitados aos produtos que lhe estão disponíveis, principalmente no Brasil, onde apenas o CBD, em casos isolados, pode ser adquirido e usado legalmente. A esperança é que a medida que novos estudos surjam na área, as leis em cima da cannabis afrouxem e em um futuro próximo uma variedade de remédios à base de canabinoides estejam disponíveis ao público em geral.

E aí, gostou do post? Já era familiar com o canabicromeno? Se restou alguma dúvida, deixe seu comentário abaixo, ficaremos felizes em responder!

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