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Maconha na história da China, índia e Egito

Eu nasci há dez mil anos atrás…e não é licença poética para o exagero. A Cannabis foi uma das primeiras plantas a serem cultivadas pela humanidade. Registros arqueológicos datam a sua utilização de 12 mil anos atrás. De origem botânica asiática, espraiou-se pela Eurásia e África. Rapidamente foi incorporada à agricultura humana, uma das primeiras plantas a serem incorporadas às práticas agrícolas. Nas Américas, foram trazidas tanto por invasores, os colonizadores europeus, quanto pelos povos africanos escravizados.

A primeira referência descrita para fins medicinais foi em 2.727 a.C. pelo imperador da China, Shen Neng, que se beneficiava da maconha no tratamento de dores articulares e gota, retratado com um casaco de folhas verdes.

Mais que uma majestade, Shen Neng gestou a medicina chinesa, estabelecendo uma base significativa com a catalogação de centenas de ervas de potência curativa. Shen Neng provava venenos e antídotos para, então, listá-los. A mais importante dessas drogas derivou de uma planta chamada ma, ou como bem conhecemos, a Cannabis

À época, em analgésicos antigos, a Cannabis foi usada na prática médica como ingrediente ativo. Bian Que, primeiro médico chinês reconhecido, menciona a flor de Cannabis, a mahua, que, combinada com a flor datura, provocava um efeito anestésico. Tal formulação ficou conhecida como “pó sagaz do sono” (shui sheng san).

Tempos depois, a flor da Cannnabis voltou a ser mencionada como ingrediente anestésico em textos dos séculos XVI e XVII. Todo esse saber levou séculos para ser difundido, pois muitos dos registros que descrevem suas qualidades só foram expostos ao Ocidente quando a China foi reaberta em 1980.

Nas dinastias do Antigo Egito, o uso da Cannabis extrapolava as propriedades terapêuticas. Enquanto as fibras da folha eram matéria-prima para a fabricação de papiros, encantava-se a planta em rituais religiosos para a deusa Seshat, padroeira das bibliotecas, associada à escrita, economia e matemática, e retratada com uma folha de sete pontas na cabeça, uma alusão à ganja.

Folha de maconha

A Cannabis também é citada nos Vedas, os textos sagrados do hinduísmo, datados dos anos de 2000 a 1400 a.C. Nas escrituras da religião milenar da Índia, além do uso medicinal, é descrita como um presente do deus Shiva para a humanidade, por ser fonte da felicidade e alegria, cordialmente oferecida para nos ajudar a alcançar prazer, perder o medo e nos libertar da ansiedade.

Heródoto, o pai da história, registra, por volta de 700 a.C., o uso ritualístico e recreativo da erva pelos persas e bárbaros. A entrada da Cannabis na Europa se dá por volta de 430 a.C. pela Grécia, por conta das propriedades medicinais, e em Roma para confecções de velas para barcos e vestimentas.

Assim, pode-se deduzir que o emprego da maconha perdurou por mais de 2 mil anos na Europa, se as velas das naus e as vestimentas das tripulações que aqui desembarcaram, em 1500, eram confeccionadas de cânhamo.

Em 70 d.C, o grego tido como pai da farmacologia médica, Pedânio Dioscórides, publicou o livro intitulado “De matéria médica”, que foi por muitos séculos a principal fonte de informação sobre substâncias medicinais. Nele, entre mais de mil plantas com propriedades medicinais, consta a aplicação da Cannabis como terapia para dores articulares e inflamações.

Baixos e altos da maconha no Brasil

Como tudo quanto é riqueza no Brasil – samba, candomblé, capoeira –, a “makana” teria sido introduzida, entre 1500 e 1550, pelos negros escravos que transportavam consigo sementes da planta escondidas em seus cabelos e bonecas de pano, tipo as Abayomi, amarradas às tangas. Nasce, então, os termos “fumo de Angola”, “bang” e “diamba”. Nestes primeiros anos de colonização, o povo de África negociava parte dessas sementes com os índios nativos da região. Não demorou para que a erva se disseminasse nas terras brasileiras. Tanto a facilidade de germinação quanto as condições favoráveis ao cultivo foram fatores decisivos para o alastramento da maconha, afinal o Brasil dispõe de condição climática semelhante à de África, especialmente pela incidência solar.

Buds de maconha
Foto: CandidChronicle

A história do Brasil está intrinsecamente ligada à planta Cannabis ou ao cânhamo. A própria palavra ‘maconha’ em português seria um anagrama da palavra cânhamo. Já reparou? Ainda que massivamente consumida pelas classes menos favorecidas da sociedade, também foi predileta de personagens da elite como a Rainha Carlota Joaquina.

Dois modos de uso da erva se difundiram: a erva medicinal e econômica, bem aceita, e até incentivada, pela elite, e o fumo da diamba, apreciado pelas camadas populares (negros, escravos e índios). Com a popularização da planta entre intelectuais franceses e médicos ingleses do exército imperial na Índia, a maconha passou a ser considerada em nosso meio um excelente medicamento indicado para muitos males e comercializada legalmente em boticários no Rio antigo. 

O uso adulto, como costumamos nos referir nos dias atuais, foi tolerado no Brasil por um tempo. Decretos de 1686 e 1700 do Rei D. João V certificam que o Estado estimulava a colheita em fazendas do Rio Grande do Sul, que eram as benfeitorias do cânhamo voltadas ao comércio da época.

Em 1785, o vice-rei do Brasil, Luiz de Vasconcellos e Sousa, enviou um ofício à Capitania de São Paulo que continha o suplício de que os agricultores tornassem a plantar maconha, essa “importantíssima cultura”, como frisava.

O documento era acompanhado de 16 sacas de sementes para serem distribuídas mais um panfleto com a explicação, tim-tim-por-tim-tim, de como cultivar a erva. Até 1880, pelo menos, outra meia dúzia de ofícios recomendavam o plantio.

Por ser de interesse da Marinha e da Fazenda Real portuguesas, pela excelente manufatura de fibras para se fazer cordas, cordões e tecidos foi cultivada até pelo próprio Império para, em uns instantes, passar de planta de cunho cultural, industrial, medicinal e religioso a uma droga marginalizada, em um plano vil para criminalizar negros e pobres.

Até então, a maconha, com ‘M’ de ‘muito lucrativa’, ninguém era doido de proibir. O cânhamo havia se convertido em uma das principais plantas fibrosas produzidas em São Paulo, segundo o “Almanach Litterario de S. Paulo para o Anno de 1876 publicado por José Maria Lisboa”. Veiculava no jornal “A Província de S. Paulo”, neste mesmo ano, o passo a passo de como cultivá-la.

Mas a primeira restrição à droga no país veio, antes, em 1830. Mesmo que nas entrelinhas, o Brasil deu o pontapé inaugural que alavancou a guerra internacional às drogas. Nosso país fez história com um vergonhoso pioneirismo na articulação pelas criminalização e demonização da maconha em escala global. 

Por mais que o Código de 1830 não guardasse nenhuma citação sobre a proibição do consumo ou comércio de entorpecentes, o Rio de Janeiro inovou ao vetar a “venda e o uso do pito de Pango”, o cachimbo de barro usado para fumar… maconha. O vendedor do pito era multado em 20.000 réis, e quem fosse pego ‘pitando’ estaria sujeito a três dias de cadeia.

Não é devaneio afirmar que o racismo foi elemento norteador para os esforços de banir a maconha, pois, aqui no Brasil, o preconceito foi escancarado no próprio texto das leis. Escrevia-se que “a maconha em pito faz negro sem vergonha”. 

Desde 1800, aliás, estava em voga uma ‘política de costumes’, que repreendia festas com cachaça, músicas afro-brasileiras e, entremeada, a erva.  À medida em que se avizinhava a abolição da escravidão, em 1888, a taxa de repressão a cultos e manifestações culturais de negros é intensificada. Pouco a pouco, o estigma racista em torno da maconha se ergueu no Brasil.

Ataques a quilombos passaram a ser frequentes. Espocavam em manchetes: “O veneno africano”, em alusão ao bang. Até que, em 1890, com a chegada da República, o Código Penal Brasileiro foi atualizado com uma seção combativa a ‘entorpecentes tóxicos’ e ‘mistificação’ (o que se entendia por todas as culturas trazidas de África). Rodas de capoeira, samba, candomblé e o uso da diamba foram obstinadamente perseguidos.

Mesmo assim, até o final do século XIX, a maconha ainda permaneceu matéria-prima têxtil e industrial. Fibras do cânhamo eram destinadas à fabricação de vestimentas, papel, corda, folha de bíblia… Sim, folha de bíblia. Em 1941, Henry Ford elaborou um carro inteiramente à base de maconha: carroceria feita de cânhamo e motor movido a óleo diesel de Cannabis. Uma viagem!

Extratos diversos da planta continuaram à venda livre em boticários até 1917 e com prescrição até 1938, quando foi banida junto com a cocaína. Até cerca de 1905 era veiculada a propaganda dos chamados cigarros índios, por exemplo, receitados para expectoração, ronco, flatulência, asma, bronquite, insônia… Em 1919, a tintura de Cannabis também aparecia como sugestão para o tratamento da gripe espanhola.

“Um infeliz carregador de jornaes, atacado de violenta asthma com suffocações, ia ver-se obrigado a abandonar a modesta posição que lhe assegurava o pão, bem como à família, quando leu casualemente um jornal que tratava da efficacia dos Cigarros de Cannabis Indica da Grimault & C. Fez uso della, e tão satisfeito ficou que, no auge da alegria, escreveu que sem elles sua vida seria impossível”, destaca o anúncio de 22 de maio de 1896.

De “índios”, as cigarrilhas pouco tinham. As carteiras, vendidas a um preço alto por serem importados da França, eram embaladas e comercializadas pelo laboratório francês Grimault & Comp. A nomeação de “índios” é em referência à família da Cannabis: a Indica. A maconha foi, e é, censurada apenas para a parcela mais pobre dos brasileiros. 

Assim como o racismo, a demonização da maconha é global

A primeiríssima diretriz repressiva da Cannabis foi em 1764, quando o imperador francês Napoleão Bonaparte invade o Egito e seus soldados entram em contato com a planta. Ao notar que o consumo minguava a agressividade dos combatentes, Napoleão proibiu-o, sob a mentira, diametralmente oposta à realidade, de que a maconha excitava a violência e transformava o usuário em um selvagem.

Mas, àquele momento, a cisma napoleônica restringiu-se como “política interna”, digamos. Entretanto o mecanismo de inverter a lógica e demonizar a planta perdurou como uma espécie de retórica. Até hoje, não?

Embarquemos novamente no túnel do tempo. Um salto aos anos 1900 nos mostra que a política internacional começou a mudar com o aparecimento das originárias convenções internacionais sobre drogas. Neste lobby, o Brasil tem contribuições decisivas para a perseguição à maconha e seus consumidores mais vulneráveis.

Até o começo do século XX, não se tinha a intenção de criminalizar a Cannabis. Tanto que a convenção internacional de drogas de 1912 estipulava apenas a criminalização do ópio, cocaína, morfina e seus derivados.

Mas, em 1915, o médico Rodrigues Dória (o sobrenome familiar não é coincidência), apresentou ao Segundo Congresso Científico Pan-americano, realizado nos Estados Unidos, um trabalho de sua autoria, onde classificava a introdução da maconha no Brasil pelos pretos escravizados como uma vingança da “raça subjugada” pelo roubo da liberdade.

O médico também apontava o canhão do preconceito contra a utilização da maconha em rituais religiosos e alertava que a erva servia para “produzir alucinações e excitar os movimentos nas danças selvagens dessas reuniões barulhentas”. Dória, que também atuou como governador do Sergipe, contribuiu para uma linha de produção de estudos eugenistas, ou seja, o racismo científico.

A demonização ferrenha da maconha ganhou mais corpo na II Conferência Internacional do Ópio, em 1924, em Genebra. À ocasião, outro brasileiro empenhado em embaralhar certezas, o delegado Pernambuco Filho, afirmou para as delegações de 45 outros países: “a maconha é mais perigosa que o ópio”.

É claro que a opinião emitida pelo Dr. Pernambuco é muito de se estranhar, pois, de acordo com documento oficial do governo brasileiro (Ministério de Relações Exteriores, 1959), analisaria o médico Elisaldo Araújo Carlini, precursor das pesquisas sobre maconha medicinal no país:

“Ora, como acentuam Pernambuco Filho e Heitor Peres, entre outros, essa dependência de ordem física nunca se verifica nos indivíduos que se servem da maconha. Em centenas de observações clínicas, desde 1915, não há uma só referência de morte em pessoa submetida à privação do elemento intoxicante, no caso a resina canábica. No canabismo não se registra a tremenda e clássica crise de falta, acesso de privação (sevrage), tão bem descrita nos viciados pela morfina, pela heroína e outros entorpecentes, fator este indispensável na definição oficial de OMS para que uma droga seja considerada e tida como toxicomanógena”.

Mas eles venceram e o sinal fechou para a Cannabis. Apesar das tentativas anteriores, a perseguição policial aos usuários de maconha se fez realmente constante e enérgica a partir da década de 30, como resultado da decisão da II Conferência Internacional do Ópio. Ponto para o delegado Pernambuco.

Em meio a todo esse burburinho, para fechar o caixão, findava, em 1933, a lei seca americana. O advento da lei seca no século XX popularizou o uso da maconha, já que o álcool estava banido. Al Capone foi um exemplo vivo de como o proibicionismo cria um mercado paralelo poderoso.

Logo, o uso da Cannabis, que antes competia somente com a indústria do algodão, passa a competir com a poderosa indústria do álcool. Quatro anos depois, é promulgada a lei de imposto sobre a maconha, o Marijuana Tax Act, com o objetivo de coibir o uso adulto e manter o uso medicinal. Porém, na prática, tornava impossível a sua prescrição.

O início dos anos 30 também foi assinalado por grande depressão econômica e o consequente aumento da desigualdade social decorrente da grande migração de mexicanos para os Estados Unidos, por conta da Revolução Mexicana.

Isso fecundou uma onda de xenofobia, que associava negativamente as minorias – negros e latinos – à ‘marijuana’, nova designação xenófoba. Com infâmia, engendrou-se a ideia de que a erva estaria associada a violência e crimes, o que resulta, até hoje, em uma justificativa para o encarceramento de massa de minorias.

Em 1941, a Cannabis acaba retirada da farmacopeia americana. Isso não impediu, em 1942, quando toda ajuda era bem-vinda no front da Segunda Guerra Mundial, que o departamento de agricultura americana incentivasse o plantio de maconha no país, sob o slogan “Hemp for Victory, com o propósito de empregar as fibras de cânhamo na produção de fardas, cordas, mangueiras, solas de sapato e paraquedas.

A utilização das fibras, antes fornecidas pelo Japão, era tão crucial que o governo concedia um incentivo para os fazendeiros. Aqueles que plantassem estariam isentos, mais toda a família, de serem convocados à guerra.

O governo Roosevelt sabia que essa medida poderia aumentar o uso adulto no país, mas os benefícios eram muito mais vantajosos. Mas o fato não mudou a opinião sobre o uso recreativo e, em 1961, a Organização das Nações Unidas (ONU) sugere ações coordenadas e universais contra as drogas, adicionando a Cannabis a esse contexto. 

Só em 2019, a maconha deixou de integrar uma lista de substâncias tidas como “particularmente suscetíveis a abusos e à produção de efeitos danosos” e “sem capacidade de produzir vantagens terapêuticas”. 

O maior responsável por colocá-la ali foi Harry Aslinger, chefe da agência norte-americana antidrogas, outro nome famoso quando falamos em proibicionismo. Aslinger misturava negativamente o consumo de maconha a raça e música. 

“O baseado faz com que os escuros achem que são tão bons quanto os homens brancos”, insultava ele. Alguns despautérios, quando lidos por gente sã, são risíveis por parecerem verídicos em um ótimo sentido:

“Há 100.000 fumantes de marijuana nos EUA, e a maioria deles são negros, hispânicos, filipinos e artistas. Sua música satânica, jazz e swing, resultam do uso de maconha. Essa marijuana faz com que mulheres brancas busquem relações sexuais com negros, artistas e outros”. Alguém também quer um baseado?

Em tempos de ditadura militar, a contracultura também reivindicou a maconha

Depois de feito o estrago, que ainda reverbera tempos depois, a ditadura no Brasil ligou definitivamente a ganja ao movimento de contracultura que fervilhava nos Estados Unidos.

No Brasil sem lenço e nem documento, ser chamado de maconheiro soava como ser xingado de ladrão. Como ainda não tínhamos uma constituição, as pessoas eram presas sem diferenciação. Portar um fininho ou um pé de ganja tinha as mesmas chances de implicar em detenção com penas altíssimas. Bom, isso não mudou completamente

Mas por mais que a planta ainda não seja legalizada o Brasil, o cenário atual para quem é usuário já prosperou bastante do que era há algumas décadas. A liberdade de poder entrar em uma headshop e escolher o sabor que quiser de blunt ou a seda que mais gosta era inimaginável em uma pátria subjugada pelo autoritarismo.

À época obscura, artistas como Gilberto Gil não escaparam à retaliação. Após a sua prisão, em 76, entre suas primeiras declarações feitas à imprensa, Gil declarou que “gostava da maconha e que seu uso não lhe fazia mal, nem lhe levava a fazer o mal“. Em pleno juízo, reiterou que a ganja “o auxiliava sensivelmente na introspecção mística”. 

A frase é significativa e realça o valor do intercâmbio cultural ocorrido dos anos 60, que proporcionou à maconha uma campanha positiva, instalando e traduzindo-se em uma referência cultural, sobretudo no circuito mainstream da classe média ocidental. Pode-se dizer que, hoje, contornando redemoinhos, ela surfa na crista da boa fama.

Seja pela via da sabedoria popular ou da investigação científica, figuras luminosas como Gil, Bob Marley e outros louvadores da soberana planta, a exemplo de Raphael Mechoulam, Elisaldo Carlini ou Sidarta Ribeiro, miraram ou ainda miram seus faróis de conhecimento em direção ao debate baseado em fatos comprovados, infundindo-nos de esperança por dias melhores.

Como se vê, o proibicionismo edifica um entrave na realização de estudos e, em primeira instância, prejudica pacientes e famílias que dependem da Cannabis para se ter qualidade de vida. É urgente afastá-la da esfera meramente policial rumo ao campo da saúde pública. Vamos juntos?

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