A maconha pode ser uma forte aliada no tratamento da doença de Alzheimer. Descubra tudo que a ciência fala sobre o assunto!

Índice:

Pensar em Alzheimer logo nos remete à perda de memória. O uso recreativo da maconha carrega o mesmo estigma. Mas as implicações da doença neurodegenerativa não cessam por aí. Assim como a Cannabis leva a fama sem tanto proveito quanto se imagina. Neste artigo, desvendaremos o laço auspicioso, e surpreendente, entre maconha e Alzheimer.

O transtorno de Alzheimer provoca deterioração das funções cerebrais como um todo. Além da memória, ficam comprometidas habilidades cognitivas. Na mira, estão atividades imprescindíveis ao cotidiano: linguagem, razão, capacidade de julgamento, habilidade de cuidar de si próprio… A lista é vasta.

Quanto à maconha, à medida que a ciência passa a examinar mais profundamente seus desdobramentos ante à saúde humana, começa-se a assegurar melhor os efeitos benéficos causados pela Cannabis no nosso cérebro – e se, de fato, prejudica a memória.

Mas vamos por partes. Para se falar do casamento promissor entre Cannabis e Alzheimer é preciso, antes de tudo, esmiuçar os efeitos do transtorno no encéfalo humano. Por ora, podemos adiantar que as certezas obtidas até aqui, pelo caminho do conhecimento, são alentadoras. Embarque conosco a seguir:

A engrenagem da doença de Alzheimer e suas implicações

O que conhecemos por esta patologia, atualmente, foi descrita primeiramente por Alois Alzheimer, psiquiatra e neurologista alemão, nos idos de 1906. A descoberta foi revelada depois que o Dr. Alzheimer, em uma autópsia, se deparou com lesões cerebrais nunca antes vistas. Os machucados, sabe-se hoje, são decorrentes da formação de “placas” neurais, responsáveis pela morte celular e atrofia cerebral.

(Fonte: Alzheimer360)

A disfunção tem raízes genéticas. Não é infecciosa nem contagiosa, mas não tem cura. Em linhas gerais, a doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva que leva, sobretudo, à devastação de funções cognitivas: memória, orientação, atenção e linguagem, o que afeta seriamente a capacidade de uma pessoa realizar tarefas do dia-a-dia.

Mas uma ponta de esperança se acende quando o transtorno é identificado precocemente. Só desta forma é possível retardar seu avanço e ter mais controle sobre os sintomas, o que promove uma melhor qualidade de vida ao paciente e à sua família. Esquecimentos, como dificuldade em lembrar palavras, e desorientação no tempo e espaço são, comumente, os primeiros indícios de que algo não vai muito bem.

(Fonte: Hospital Santa Mônica)

O sucesso do diagnóstico antecipado se justifica pela própria engrenagem da patologia. Os neurônios de quem sofre com o Alzheimer acumulam em si uma fibra proteica pegajosa, chamada beta-amilóide — aquelas placas deparadas pelo doutor homônimo. Cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) constataram que a proteína beta-amilóide também provoca transtornos depressivos.

A beta-amiloide é fabricada pelo próprio organismo. No entanto, o seu papel preciso é obscuro. Uma pesquisa aponta que a proteína pode ter papel de proteção contra infecções cerebrais, mas sua condensação é bastante nociva. A expectativa de vida após o diagnóstico de Alzheimer não passa de 10 anos.

Componente principal do depósito de placas que são características da doença de Parkinson, ao se acumular entre as células nervosas cerebrais, emperra a comunicação entre elas. Logo, o resultado da aglutinação da proteína é o declínio cognitivo do paciente. Mas o pretexto específico do amontoamento, no entanto, ainda é um mistério para a ciência. 

Há pistas. Reforçam os cientistas que a predisposição genética para o Alzheimer é um aspecto de proeminência, pois foi observado por eles que pacientes com familiares acometidos pela doença apresentam os primeiros sintomas mais cedo do que pacientes sem histórico familiar, por volta dos 50 anos.

Ainda assim, devem ser encarados com seriedade outros fatores de risco como: diabetes mellitus, hipertensão arterial, depressão, surdez, baixa escolaridade, sedentarismo, consumo elevado de gordura saturada, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, infecções recorrentes por vírus da família herpes e até exposição contínua à poluição atmosférica. Todos os elementos estão frequentemente associados a uma maior chance de desenvolver o Alzheimer. 

Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) calculam que 47,5 milhões de pessoas convivem com algum tipo de demência. O Alzheimer, por sua vez, representa cerca de 70% dos casos. É o mais frequente dos tipos. No Brasil, afeta 1,2 milhão de pessoas, segundo a Associação Brasileira de Alzheimer. 

Ainda de acordo com a OMS, em 2050, esse universo pode passar dos 130 milhões de pacientes, em suma idosos com mais de 65 anos. O Alzheimer afeta 1% dos idosos entre os 65 e 70 anos, mas a prevalência aumenta exponencialmente com a idade: são 6% acometidos aos 70, 30% aos 80 anos e mais de 60% após os 90 anos.

(Fonte: Catraca Livre)

Como é da lei geral para uma vida plena, hábitos saudáveis colaboram para prevenir a doença. Experts das universidades da Califórnia e de Pittsburgh, nos Estados Unidos, descortinaram a informação de que quem se exercita mais tem um cérebro maior, sobretudo em áreas associadas à memória e ao Alzheimer, a exemplo do hipocampo. O perigo da má condição se desenvolver caiu pela metade no pessoal analisado.

A prática de atividades físicas nos dá uma pista do porquê os endocanabinóides, produzidos quando se mexe o corpo, são fundamentais inclusive na terapia de contenção dos sintomas do Alzheimer. Veremos mais adiante.

Quanto mais trabalhar o juízo, melhor para minguar o risco de ter a disfunção. Há de se exercitar o cérebro, desafiar o raciocínio com leituras, palavras cruzadas, jogos de estratégia, pois o sedentarismo cognitivo aumenta em 19% as chances de ter Alzheimer.

Mesclado a tudo isso, uma dieta rica em peixes, azeite de oliva, vegetais e castanhas contribui para resguardar os neurônios. Controlar o peso também evita danos às artérias, que, com o passar do tempo, boicotam as atividades neuronais. Nesse sentido, vale salientar que é taxativo conter os níveis de colesterol, pressão e diabetes.

O dossiê paradoxal da Cannabis sobre a memória humana

A memória humana é setorizada: há a memória de curto prazo e de longo prazo. A primeira é incumbida de armazenar eventos temporariamente. A de longo prazo é onde as informações são guardadas de forma duradoura ou permanente.

Aí é que está o xis da charada maconha vs. memória, ou melhor, a falta dela. De acordo com um ensaio escrito por dois professores das Universidades de York e de Leeds, situadas na Inglaterra, o uso adulto da Cannabis é capaz de alterar ou distorcer temporariamente o processamento da memória a curto prazo

Ainda segundo o artigo, a causa desse desmemoriamento estaria relacionada à interrupção da sinalização neural quando os compostos canabinóides se ligam aos receptores cerebrais encarregados das lembranças. Os pesquisadores alertam que a intermissão da memória de curto prazo pode tolher a aprendizagem, assim como causar dificuldades de concentração.

Mas ao contrário do que se vulgarmente se diz por aí, a maconha não mata os neurônios. Essa tarefa degradante fica a cargo de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. O quadro de esquecimento fugaz é revertido em questão de semanas, se o usuário suspender o consumo recreativo da Cannabis. 

O problema se agrava quando o uso é exagerado, associado ao álcool e/ou feito por adolescentes. Com o encéfalo ainda em desenvolvimento, a maconha pode causar mais danos ao cérebro juvenil do que a bebida.

No entanto, outras pesquisas validam o impacto positivo que a Cannabis pode ter em doenças neurodegenerativas que afetam a memória, como Alzheimer, epilepsia e doença de Huntington. Em estudos principalmente em animais, quando cientistas manipularam componentes encontrados na maconha, eles apuraram que os canabinóides têm ímpeto para retardar ou até impedir o avanço dos transtornos.

O Sistema Endocanabinóide como promessa de qualidade de vida aos portadores de Alzheimer

Nos Estados Unidos, a partir de um levantamento da Clínica Cleveland, é praticamente um consenso que os medicamentos alopáticos falham. Entre 2002 e 2012, o centro acadêmico norte-americano testou drogas diversificadas contra esse tipo de demência e reconheceu que 99% delas não trouxeram qualquer resultado proveitoso. 

Algumas explicações consolidam o saldo da sondagem: uma delas é que, nos estágios mais delicados, por mais que se retire a proteína lesiva, as células nervosas já morreram, o que é irreversível (daí a importância da diagnose precoce). A outra justificativa é o terreno de incerteza onde o transtorno de Alzheimer se delineia. Os cientistas ainda não chegaram a um consenso sobre quais fatores são estopim da ruína mental.

Com mais de 1 milhão de pessoas portadoras deste modo de demência no Brasil, avoluma-se a busca por terapias que amenizem, realmente, os sintomas. A Cannabis pode ser, e é, uma saída. Uma série de pesquisas acerca do tema tem tomado fôlego mundo afora. Uma delas afirma que a Cannabis pode ser aliada, como um complemento, ao tratamento alopático tradicional, em uma resposta positiva a sintomas como agressividade e insônia.

(Fonte: Hypeness)

Outras pesquisas destacam que o CBD é capaz de evitar a criação de proteínas malformadas relacionadas ao Alzheimer, a beta-amilóide. Também, em mais um estudo, a associação entre os canabinóides e a proteção às células nervosas é demonstrada.

Uma gama de benesses proporcionadas pela Cannabis podem ser suscitadas. Seu poder terapêutico é múltiplo. Melhora na socialização e no apetite, abrandamento da insônia, tranquilização do paciente, amenização de oscilações bruscas de humor, redução de inflamações em variadas áreas do corpo, além de atuar na neurogênese – capacidade de regeneração do cérebro pelo nascimento de novas células.

Todas essas vantagens, quando se pensa na condição do Alzheimer, fazem sentido que arranjem uma melhora na qualidade de vida do idoso e seus cuidadores. Usar o extrato oleoso de Cannabis desde as manifestações primárias do Alzheimer auxilia enormemente no controle dos transtornos, já que a medicação atenua boa parte dos sintomas.

(Fonte: TopGrows)

A esperança deriva dos receptores do Sistema Endocanabinóide (SEC) e seus endocanabinóides, que entram em cena quando os canabinóides presentes na maconha são ingeridos sob a forma de gotas.

O enlace dos canabinóides da maconha (sejam o canabidiol (CBD), o tetra-hidrocanabinol (THC), o canabinol (CBN) ou o canabigerol (CBG) com os nossos endocanabinóides é fértil. Em comunhão, levam nosso corpo a atingir um estado de homeostase, que significa nada menos que o equilíbrio do organismo. Trocando em miúdos, é quando o organismo conserva estável o seu meio interno, independentemente das inquietações que decorram no ambiente externo.

Se o SEC é um sistema biológico composto por neurotransmissores (os endocanabinóides), o consumo do óleo de Cannabis é espantosamente eficaz nos casos de Alzheimer porque age diretamente no cérebro. Além disso, quando ativados, esses receptores, alastrados por partes do corpo sortidas, também se empenham em mitigar inflamações e atenuar dores musculares.

Como não fosse bastante, estudos dão conta que o óleo de Cannabis opera como um neuroprotetor que inibe a formação excessiva de beta-amilóide no cérebro, disfunção inerente aos pacientes com Alzheimer, associada à degeneração das células cerebrais e ao quadro de demência. As conclusões foram obtidas a partir de um estudo realizado por pesquisadores do Salk Institute, na Califórnia, publicado em junho de 2016 no jornal científico Aging and Mechanisms of Disease.

A equipe do Salk analisou células nervosas alteradas para produzir altos níveis de beta-amilóide para imitar os aspectos da doença. Nelas, desvendaram evidências preliminares de que o THC e outros canabinóides encontrados têm potencial para remover a beta-amilóide, proteína que forma as “placas” no cérebro responsáveis pelo mal de Alzheimer. 

Os testes foram conduzidos em neurônios cultivados em laboratório e fornecem indicadores para o desenvolvimento de novas terapias contra a doença, entretanto, carecem mais estudos em humanos para aperfeiçoar o tratamento via Cannabis

A maioria das investigações em pessoas foram executadas sob o viés comportamental. Falta lançar olhares pela perspectiva da cognição. Testes clínicos são necessários para traçar uma terapia com o uso da Cannabis. Por esta razão, o extrato de maconha não é indicado como tratamento único, e sim como uma terapia complementar. 

Mas os estudos feitos em animais levantaram que tanto o canabidiol quanto o THC são certeiros na redução da formação exacerbada da proteína beta-amilóide: tiveram efeito anti-inflamatório, além de agir no mecanismo neurodepressivo.

A exposição de células nervosas ao THC encolheu os níveis de beta-amilóide e eliminou a resposta inflamatória dos neurônios desencadeada pelo amontoado da proteína visguenta, o que garante certa sobrevida aos nervos cerebrais. 

A inflamação cerebral é uma particularidade relevante do dano inerente à doença de Alzheimer, mas sempre se assumiu que esse feedback se originaria de células do cérebro semelhantes às do sistema imune, não das próprias células nervosas, afirmam pesquisadores do laboratório de Schubert.

A estratégia tomada pelos cientistas foi de identificar a base molecular da resposta inflamatória à beta-amilóide. Assim, ficou patente que componentes semelhantes ao THC, produzidos pelas próprias células nervosas, podem estar envolvidos em impedir a morte neural.

Do lado de cá do hemisfério, no Brasil, um grupo do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), colaborador da AMA+ME, atestou a função neuroregeneradora do CBD. Sua ação implica no aumento das células progenitoras de neurônios no hipocampo.

Por mais que sejam escassos os testes clínicos supervisionados, há bastantes famílias, em suas particulares configurações, que usufruem do néctar da Cannabis para serenar as inquietações mil desse ou daquele ente querido portador da doença de Alzheimer. Francisquinha, figura cativa do canal O Bom do Alzheimer, é um exemplo vivo, muito vivo, de como a erva da maconha pode devolver a convivência harmoniosa entre mãe e filha.

Posts recentes

Veja mais

jQuery('#cb-section-b .cb-module-e').after('');