“Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra”. Acompanhada de cólicas, enxaquecas, tensão, sensibilidade mamária, mau humor, insônia… Eis o ciclo menstrual. A boa notícia é que a Cannabis medicinal tira de letra como mimar alguém nessas condições.

Tomando uma perspectiva mais enraizada da coisa, usufruir da sabedoria da Natureza, isto é, das plantas medicinais como um todo, engendra o pleno exercício dos direitos sexuais e reprodutivos por intermédio de fármacos, pomadas, misturas e poções. Em outras palavras: um movimento de autoconhecimento.

A coragem de assumir e difundir a alternativa canábica — ou homeopática — para um tratamento mais gentil de alívio de dores menstruais e complicações outras decorrentes da menstruação extrapola o cunho de protesto: ampara-se sobre o pilar de pesquisas, recomendações e experimentos pessoais que respaldam o benefício da maconha como analgésico, anti-inflamatório, sedativo e antiespasmódico.

A crescente autonomia humana e a abertura política de alguns países têm dado aval para que se inventem formas de usos da maconha, como extratos oleosos e supositórios vaginais. É tempo, portanto, de se reconectar com os poderes ancestrais de cura, por estabelecer uma desmistificação das construções culturais em torno, especialmente, da Cannabis.

Ah! Que fique aclarado com o sol: aqui, no Mapa da Maconha, respeitamos as identidades. Este post, portanto, é dedicado a mulheres cis e também a existências trans: homens ou seres não-binários com capacidade de menstruar. Este é o nosso convite amoroso para adentrar, a seguir, às novidades do ramo da Cannabis medicinal voltadas à menstruação.

TPM: Tensão Pré-Menstrual ou Tempo Para a Maconha medicinal

TPM. Tensão pré-menstrual, ou, perante releituras pejorativamente machistas, “tente perturbar menos”, “tô p*ta mesmo”, “tente no próximo mês”… Bom, se é para entrar na ciranda dos trocadilhos, tomemos TPM como “tempo para mim”. Estar atenta às falas do corpo e respeitar o próprio ritmo do corpo é um serviço de autocuidado para a saúde.

A disfunção, que antecede, entre cinco e onze dias, o período da menstruação, provoca uma mudança nos níveis de hormônios sexuais e de serotonina. Neste espaço de tempo, os níveis de estrogênio e progesterona sobem, podendo reverberar em alterações variadas de humor, ansiedade e irritabilidade, pois estes esteróides ovarianos modulam a atividade em partes do cérebro vinculadas a sintomas pré-menstruais.

Em essência, a serotonina promove rearranjos nas emoções e nos pensamentos. É uma substância química que age tanto no cérebro quanto no intestino. Já ouviu a expressão geral ‘se borrando de medo?’. Pois bem. É comum que pessoas com ovários sintam  perturbações gastrointestinais, como diarréias, também por conta desse eixo cérebro-intestino.

Outras mazelas como sensibilidade nas mamas, náusea, enxaqueca, insônia, dores nas articulações e febre com calafrios também são relatadas pelas quase 80% desafortunadas pelo acometimento da TPM. O número é fornecido pela revista científica American Family Physician.

Há medicamentos alopáticos, anti-inflamatórios e analgésicos, que mascaram dores dessa categoria. No entanto, sabemos que a bula tem letrinhas miúdas quase confidentes dos efeitos colaterais e adversos dos tidos comprimidos ‘milagrosos’. Estes efeitos podem levar – e levam – muitas pessoas, à morte, a depender do rol de comorbidades.
Por outro lado, a Natureza, sábia que é, presenteia-nos com arranjos de flores e ervas seguramente efetivos. Alecrim, artemísia, orégano e… maconha! Assim como tantas infusões de chá, a verdinha, preferência nacional, viabiliza o alívio tanto dos sintomas físicos quanto da ordem psíquica. Sabemos que não há registro de overdose desencadeada pela Cannabis.

Foto: Sechat

Um artigo de 2017, co-produzido por pela psicóloga Melissa Slavin, cujo trabalho de pesquisa se concentra em investigar os efeitos de diversas drogas no organismo humano, constatou o relato de bastantes mulheres que, dentro de um mês de uso da Cannabis para fins de abrandar manifestações da TPM, experimentaram resultados positivos no alívio dos sintomas, exceto para comer demais ou desejos por comida.

Se a menstruação bate à porta, ofereça um chá… de Cannabis

À medida que o útero expele o sangue, contrações se fazem necessárias. Isto é o que sabemos, e sentimos na pele, como cólicas menstruais. A prostaglandina é a culpada pelas contrações musculares de toda natureza: sejam as que precedem o momento de parir, sejam aquelas que causam as famosas cólicas menstruais e intestinais, o que pode desencadear diarreia e dores abdominais.

Fumar a ganja, garantem pessoas com útero, é um atalho para atravessar o caminho tortuoso da cólica menstrual, que, tantas vezes, de tão intensa, incapacita para as atividades do dia-a-dia. Mas não é lá uma boa ideia ficar chapada em meio ao expediente de trabalho, por exemplo, ainda que em tempos de home office.

Em alguns países, como Indonésia e Japão, já foi implementada uma “licença menstruação”. Com a conquista desse direito, as mulheres (nesse caso específico, as cisgêneras) podem gozar de um ou dois dias de folga remunerada todo mês.

Foto: Medical Marijuana Inc

Atenta a isso, uma empresa especializada em criações de produtos com propriedades medicinais da Cannabis desenvolveu o primeiro supositório vaginal à base de maconha, em 2016. O artefato promete, e cumpre, nocautear as dores e os desconfortos gerados pelas contrações uterinas mais acentuadas. 

O supositório é basicamente composto pela junção de manteiga de coco e óleo concentrado de THC e CBD. Os dois ingredientes naturais unem forças para relaxar os músculos e, dessa maneira, amenizar as dores da cólica, sem nenhum efeito psicoativo. Pouco se reconhece o fato de que a região pélvica é a parte do corpo com mais receptores canabinóides, depois do cérebro, por isso o uso tópico de derivados canábicos tanto vigora.

Com a intenção de propagar as poderosas particularidades medicinais da erva, vinculadas a técnicas modernas de extração, a startup pegou o gancho do que é, no fundo, um saber ancestral. A Cannabis é habitualmente utilizada de forma terapêutica há milênios, um bálsamo natural repleta de benefícios à saúde do corpo e da mente. 

Também nos Estados Unidos, a atriz Whoopi Goldberg firmou uma parceria com Maya Elisabeth, fundadora da Om Edibles e uma das principais empresárias no ramo da maconha medicinal e recreativa dos EUA, para estrear uma linha de produtos voltados para a desopressão dos espasmos menstruais

Goldberg sentiu na pele o desassossego que são as cólicas. A humorista detalha que padeceu por toda uma vida de menstruações difíceis e a maconha era, de fato, a única coisa que a serenava.

Igualmente ao tampão canábico, o kit foi manipulado para não modificar o estado da mente; opera como uma espécie de calmante e relaxante. São comercializadas quatro versões: um chocolate para beber, uma essência, um sabonete de banho e infusões para a banheira.

Foto: RxLeaf

A cautela é indispensável, via de regra. O médico expert em Cannabis, Fernando Caudevilla, endossa que não há publicados estudos científicos que preconizam a maconha ou algum dos seus componentes como um método idôneo para as dores menstruais, nem os seus mecanismos de ação sugerem algum efeito nessa lógica. 

Como se sabe, comprovadamente, a categoria de dor em que os canabinóides têm eficácia verificada é a gerada por afetação direta dos nervos (a chamada dor neuropática), emana de doenças neurodegenerativas, como o Parkinson.

De todo modo, articula Caudevilla, a dor é uma experiência individualmente subjetiva. Ou, como canta Gal Costa, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Nessa cadência, “a malícia de toda mulher” (regularmente maconhista) se apodera do uso recreativo da verdinha para retomar a qualidade de vida sem dores menstruais. Não se pode ignorar essas vivências particulares. 

Reavendo a perspectiva profissional de Caudevilla, o médico atina que o uso tópico da maconha, por meio de cremes anti-inflamatórios, tem pouca eficácia quando comparados com fármacos tomados por via oral, por exemplo. “Mesmo assim há idosos que me dizem que, para eles, o que resulta mesmo na artrose é o creme”, ilustra em entrevista à revista Vice portuguesa. 

“Nesse caso concreto parece-me adequado continuar o tratamento e seria irresponsável receitar outro, assim como, da mesma forma, se uma fumadora regular de marijuana recreativa prefere melhorar a sua dor menstrual através da Cannabis, não lhe podemos negar essa experiência pessoal”, arremata.

Mariano García de Palau, diretor médico da Kalapa Clinic, a pioneira clínica especializada em tratamentos alternativos com canabinóides, salienta que o THC e o CBD são úteis no tratamento da dor menstrual, tanto administrados por via oral como aplicados a nível local intravaginal, pelas qualidades analgésicas, anti-inflamatórias e espasmolíticas

Ante à Cannabis, a endometriose perde força

Ter cólica, até certo ponto, é normal. Mas se a dor lhe paralisa, impedindo de cumprir suas tarefas cotidianas, é sinal agudo para uma possível endometriose. De forma sorrateira, a endometriose se dá por um distúrbio em que o tecido que normalmente reveste o útero — o endométrio, ou seja, o sangue eliminado pela menstruação — cresce fora do útero. 

A disfunção recai sobre células sanguíneas, que, em vez de serem expelidas, migram no sentido oposto e caem nos ovários ou na cavidade abdominal, onde voltam a multiplicar-se e a sangrar. A dor é lancinante.

Foto: The Fresh Toast

As causas da endometriose ainda não estão bem estabelecidas. Uma hipótese é que a motivação seja genética e esteja relacionada com possíveis carências do sistema imunológico. Para esta afecção, o canabidiol (CBD) pode ser um aliado. 

Um estudo de revisão difundido pela revista Cannabis and Cannabinoid Research, em 2017, analisou pesquisas existentes em torno da endometriose e do Sistema Endocanabinoide (SEC). As qualidades anti-inflamatórias do CBD configuram-o em uma opção segura para seres com dor de endometriose.

Os cientistas concluíram que o SEC pode desempenhar um papel no abrandamento dos sintomas da endometriose. Os agentes terapêuticos da Cannabis, que modulam o SEC, podem ser eficazes no tratamento da dor e da patologia dessa condição.

E não é apenas o CBD que pode dar aquele salve. Outro estudo, publicado na revista científica eLife, em 2020, em observância a animais, encadeou o tetrahidrocanabinol, ou THC, à suavização das expressões dolorosas resultantes da endometriose. Os experts também descobriram que o THC poderia potencialmente tratar a causa da dor, inibindo o desenvolvimento de cistos endometriais. No entanto, mais pesquisas são necessárias.

Cauvevilla condena o comportamento daqueles que abraçam cegamente tudo o que vem da indústria canábica só por se denominarem “substâncias naturais”. É costume tecer duras críticas à indústria farmacêutica — muitas vezes de forma justificada, claro. 

Mas o perito em Cannabis redargue: “A maconha é natural como o veneno de uma serpente. Natural não é, por definição, melhor ou pior que os medicamentos”, em alusão à dicotomia entre medicina alopática e homeopática.

Os canabinóides não são os analgésicos mais potentes, como os encontrados nas prateleiras de qualquer farmácia, adverte o doutor. Também não são os anti-inflamatórios mais eficientes. Mas, sem dúvidas, assevera Caudevilla, podem trazer um efeito relevante pelo baixíssimo nível de toxicidade.

A recomendação do diretor médico é de que, para aqueles que não tenham o costume de usar a Cannabis de forma lúdica, o extrato da planta deve ser aliado a um tratamento de eleição, com segurança e eficácia patentes.

A maconha e a possibilidade de dar uma pausa na menopausa

Semelhante metodologia de pesquisa poderia explicar por que o extrato oleoso de CBD evidenciou ser benéfico para indivíduos com complicações consequentes da menopausa, não só pela capacidade de aumentar potencialmente o fluxo sanguíneo, mas também por amenizar a inflamação.

Uma pesquisa, oriunda da parte norte do estado da Califórnia, nos Estados Unidos, ratificou a hipótese. A partir de levantamento aplicado em mulheres cis, em uma amostra de 232 mulheres cis, com idade média de 56 anos, ficou documentado o avolumamento do consumo de maconha para moderar sensações incômodas subsequentes da menopausa. Os resultados do estudo foram veiculados, em meio a muitas outras durante a Reunião Anual Virtual da Sociedade Norte-Americana de Menopausa (NAMS).

Nesse universo, 54% das entrevistadas se queixaram de ondas de calor e sudorese noturna, 27% relataram insônia e 69% deram notificaram sintomas geniturinários (fatores como secura vaginal, diminuição da libido, dores durante o ato sexual e incontinência urinária de urgência). Destas, 27% assumiram usar ou terem usado a Cannabis para minguar seus sintomas. A planta foi desfrutada com mais frequência por aquelas que relataram ondas de calor e suores noturnos.

Outros 10% das participantes expressaram inclinação futura em provar a Cannabis para moderar os sintomas da menopausa. Em contraste, apenas 19% revelaram recorrer ao tipo mais tradicional de controle dos sintomas da menopausa, a exemplo da terapia hormonal.

Foto: Strainprint

A crescente do bom uso teria conexão com o afrouxamento da legislação relativa à Cannabis. A erva tem sido massivamente empregada para comedir diversas condições crônicas de saúde e oscilações de humor, o que sugere também que a utilização da maconha para esse fim pode — e deveria — ser algo comum.

Por outro lado, alerta Carolyn Gibson, psicóloga e principal autora do estudo, para a importância de mais apurações nessa área, pois não se sabe ao certo se o uso da Cannabis é eficaz e segura para o controle dos sintomas menopáusicos. 

Nessa toada, Gibson indaga se as pessoas com útero põem o tema em xeque nos consultórios médicos, já que o consumo de maconha, ilegal na maior parte do mundo, é um tabu. Esta declaração, ainda sob o pensamento de Gibson, despertaria os profissionais de saúde a promover mais pesquisas neste campo.

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