Estudos demonstram potencial terapêutico da maconha no tratamento da insônia e melhora do sono. Descubra o que a ciência diz sobre o assunto.

As pesquisas científicas sobre a cannabis medicinal indicam que a planta pode ajudar no enfrentamento dos problemas para dormir, a chamada insônia, e no prolongamento do tempo e qualidade do sono das pessoas. Realizados em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil, os estudos mostram o potencial da maconha para a hora de relaxar e descansar a cabeça no travesseiro.

O sono é extremamente importante para garantir o bom funcionamento do organismo e qualidade de vida. Quando dormimos, o corpo restaura tecidos, regula os hormônios, organiza e consolida as memórias, armazena energia, limpa as toxinas produzidas pelo próprio cérebro e metabolismo. “O sono é fundamental. Sem ele, a vida humana não é possível. Um animal privado completamente do sono não sobrevive”. A afirmação é do neurocientista, fundador e vice-presidente do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Sidarta Ribeiro, em entrevista à revista Trip.

Com boa parte da formação dedicada aos estudos do sono, dos sonhos e dos efeitos curativos da cannabis, Sidarta Ribeiro defende que o sono desempenha funções essenciais para a saúde física e mental de qualquer pessoa. Segundo ele, o tempo que passamos dormindo influencia diretamente no aprendizado e até na produção dos sonhos. O neurocientista pontua que sonhar auxilia a cognição, estimula a criatividade e aumenta o desempenho nas tarefas do dia a dia. 

“[os sonhos] dizem respeito à navegação do mundo complexo das cascatas de símbolos que a gente gera todos os dias. Todos esses níveis dizem respeito à saúde física e mental das pessoas. A pessoa que consegue ter um sono de boa qualidade – que começa não muito tarde, termina não muito cedo, não é fragmentado e que, ainda por cima, permite a lembrança do sonho – está muito bem na fita, está muito bem posicionada para ter saúde persistente do corpo e da mente”, acrescenta.

Foto: Reprodução/TV Brasil

Para atestar a importância do sono, o pesquisador realizou um teste com jovens estudantes. Os resultados apontam que o sono aumenta a duração da memória, promovendo a fixação do conteúdo aprendido. A partir dessa perspectiva, Ribeiro sugere que as escolas deveriam utilizar mais a soneca tendo em vista os seus benefícios. “Aumentar em grande escala a duração das memórias adquiridas nas escolas a um custo compatível aumentaria a eficácia do aprendizado e contribuiria para a formação de uma elite cultural e intelectual no país”, explica à TV Brasil.

Insônia e suas implicações na saúde

A insônia é considerada um dos principais distúrbios do sono e afeta cada vez mais pessoas. De acordo com a Associação Brasileira do Sono (ABS), 73 milhões de brasileiros sofrem com o distúrbio. Além disso, está associada ao aumento do risco de morte, doença cardiovascular, Alzheimer, depressão, diabetes, hipertensão, fadiga, ansiedade e obesidade.

O distúrbio é definido pela dificuldade de iniciar o sono ou se manter dormindo, despertar precoce e sono não restaurador. Em casos que persistem mais de um mês e interferem na qualidade de vida, é aconselhável buscar tratamento especializado através de avaliação médica. A insônia pode estar relacionada  a uma causa específica, como a ansiedade, depressão, estresse, dor muscular e ou articular, uso de medicamentos, ambiente inadequado (barulho, temperatura, problemas no colchão, claridade excessiva), entre outras. Nos casos em que não se relaciona com um fator mais evidente, é classificada como insônia primária, aquela sem causa bem definida.    

Diante disso, os especialistas alertam para a necessidade de combater as causas e não só os sintomas. A insônia pode ser aguda ou crônica. A primeira se refere a dificuldade em dormir após uma situação de estresse. Já a segunda, comum nas faixas etárias mais avançadas, pode ser definida pela dificuldade para iniciar o sono ou continuar dormindo de forma frequente e por tempo prolongado. O diagnóstico é feito através do histórico clínico do paciente, onde o especialista investiga questões emocionais da pessoa e os hábitos que podem interferir na hora de dormir.

Foto: Freepik

Em busca de tratamentos menos fortes para a insônia e diversas doenças, a cannabis se mostra uma alternativa eficaz e segura.

Cannabis pode auxiliar no tratamento de insônia crônica

O potencial terapêutico da cannabis no tratamento da insônia crônica foi avaliado em estudo realizado por cientistas da Universidade da Austrália Ocidental. Segundo o texto, o efeito sedativo causado pela cannabis pode ser uma terapia alternativa para os pacientes com dificuldade para dormir. Na fase de teste, 23 pessoas fizeram o tratamento com o ativo durante 14 noites. Os voluntários tomaram uma dose única ou dupla do medicamento conforme os sintomas de cada. Eles não sabiam se estavam tomando o medicamento à base de cannabis ou placebo, substância neutra que não apresenta interação com o organismo. 

A partir disso, os pesquisadores observaram que o uso da cannabis melhorou o sono de 36% das pessoas analisadas. Os participantes apresentaram melhora na qualidade do sono e na sensação de acordar descansado. Além disso, eles relataram melhora no estresse e fadiga. Para a avaliação, os autores se basearam no Índice de Gravidade da Insônia (ISI) e consideram aspectos como duração total do sono, horário de dormir, qualidade do sono e sensação de descanso após o repouso noturno.

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O autor do estudo e pesquisador do Centro de Ciência do Sono da universidade, Peter Eastwood, considera o ensaio clínico mais rigoroso já realizado para analisar a associação da cannabis no tratamento da insônia crônica. “É provável que melhorias adicionais na eficácia possam ser alcançadas com a dosagem por um período mais longo e potencialmente em doses mais altas”, completa.

Uso da cannabis para redução da dificuldade de dormir em idosos

Idosos americanos estão usando a maconha para aliviar a dificuldade de dormir. A descoberta é de uma pesquisa elaborada por estudantes da Universidade da Califórnia, em San Diego, publicada no final do ano passado. O artigo que descreve o estudo é intitulado como “Cannabis: um tratamento emergente para sintomas comuns em adultos mais velhos”.

O estudo foi feito com 568 pessoas anônimas com 65 anos ou mais. Do total, 15% relataram usar a cannabis para amenizar a dificuldade do sono há três anos. Além disso, 53% dos usuários disseram que usam a substância  regularmente e para fins médicos. Para 61% dos entrevistados, o uso da cannabis começou após os 60 anos, diante de problemas para dormir causados pelo desgaste natural do corpo.

Ainda segundo as informações da pesquisa, na faixa etária superior aos 60 anos, os novos usuários usam a cannabis para fins médicos, sem apresentar pretensão de usos como o recreativo. O estudo acrescenta que os idosos ficam mais confortáveis em usar a substância em remédios tópicos, a exemplo das loções.

Sobre a eficácia dos medicamentos para o alívio da dificuldade do sono nos idosos, os pesquisadores do artigo apontam que é necessário a realização de mais estudos sobre o potencial da Cannabis. No entanto, fatores como o aviso ao médico do uso da substância revela a menor estigmatização do método de tratamento, na comparação com as décadas passadas.

Mulheres são maioria no tratamento de distúrbios do sono com a maconha

No Brasil, as mulheres acima dos 50 anos são as que mais procuram  tratamento com a cannabis, representando 53% das pessoas que buscam a alternativa. E entre os motivos mais comuns para a busca, está o uso medicinal para o enfrentamento da insônia. Os dados são da pesquisa feita pela Gravital Clínica Canábica, que atende pacientes que buscam tratamento com produtos derivados da planta.

Ainda segundo o levantamento, as mulheres com média de idade de 52 anos são as que mais buscam tratamento à base de cannabis. Além disso, na comparação com as demais faixas de idade, 29,7% delas possuem mais de 60 anos.

Segundo a análise da equipe médica responsável pela pesquisa, existe um aumento da busca pelo canabidiol para o tratamento de condições como a insônia. E a elevação está relacionada com o momento de pandemia, que afeta a qualidade do sono e gera quadros como a ansiedade, além do interesse pelo tratamento com a substância, pautado pelos indicativos de segurança e raridade de efeitos colaterais graves.

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Na análise comportamental dos pacientes, o estigma quanto ao tratamento psiquiátrico convencional é outro fator para a procura do meio alternativo. 

De acordo com dados da Anvisa, as autorizações para importação de cannabis para fins medicinais aumentaram 116,66% no país, passando de 8.701 para 18.852, na comparação entre 2019 e 2020. Com relação ao registro de novos pacientes, a alta foi de 138%, no igual período comparativo, indo de 6.459 para 15.382 cadastros.

Atualmente, está em vigor uma resolução da Anvisa que viabiliza a importação de produtos que têm como base a cannabis. A RDC 335/20 permite que pacientes importem o produto por um período de dois anos, desde que exista a prescrição médica para justificativas como 

o tratamento das condições que interferem no sono e na saúde. 

Ainda segundo a Anvisa, as farmácias que realizarem a comercialização dos produtos com base no canabidiol não podem manipular a substância no local, além de respeitar a regra da venda somente com prescrição médica. No território brasileiro, cabe destacar que não está liberado o cultivo da cannabis para a produção de medicamentos e estudos clínicos por fabricantes. Como consequência, as empresas precisam importar o extrato da planta.

No entanto, nos casos de pacientes que não têm condições para comprar os medicamentos importados, é possível solicitar judicialmente uma autorização para o autocultivo.

Strains que auxiliam na melhora da insônia

No âmbito do uso da cannabis para o tratamento de distúrbios relacionados ao sono, existem variações da erva que podem ajudar na melhora do problema. Entre elas, as cinco principais são a Hindu Kush, Purple Kush, King Louis XII e Grease Monkey.

Hindu Kush

Com nome derivado da cordilheira entre o Paquistão e Afeganistão onde foi originada, a strain é uma Indica pura. A Hindu Kush promove uma profunda sensação calmante que auxilia no alívio de dores, náuseas e estresse. Por conta do efeito relaxante, também é indicada para ajudar na insônia. A variação pode ter 18,5% de THC e 1% de CBD.

Purple Kush

Purple Kush Strain
Foto: KannabiaSeeds

Criada a partir do cruzamento entre a Hindu Kush e Purple Afghani, a strain é uma Indica pura que surgiu na região da Califórnia. A variação proporciona um intenso efeito relaxante. Além de auxiliar na insônia, a Purple Kush é indicada para tratar de dores crônicas, enxaqueca e artrite. A genética pode ter níveis de THC que variam de 17% a 27% e 1% de CBD. A planta chama atenção por conta da sua paleta de cores que misturam tons quentes e frios, variando entre as cores roxa, vermelha e laranja.

King Louis XII

Com nome de aristocrata francês, a King Louis XII é uma strain Híbrida que promove relaxamento em quem a utiliza. A variação pode ter 21% de THC e 1% de CBD. A genética, criada em parte com a OG Kush, se destaca pelo odor cítrico e apimentado de pinho com almíscar.

Grease Monkey

Criada por Exotic Genetix, a strain pertence a uma linhagem doce e terrosa, com fortes conotações de skunk. A Grease Monkey surgiu a partir de um cruzamento de GG4 e Cookies and Cream. A variação que provoca um relaxamento profundo também é indicada para combater a dor crônica, náusea e estresse. A genética pode ter 23% de THC e 1% de CBD.

Vale ressaltar que, antes de tudo, é preciso levar em consideração o seu histórico clínico para escolher a melhor variação da cannabis e dosagem correta. Afinal, não custa lembrar que a diferença entre o remédio e veneno é a dose. Para mais informações sobre os tipos de maconha e seus efeitos, não deixe de conhecer o nosso Guia de Strains.

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